Manoel Carlos: Helenas foram variações de um mesmo ser - 10/01/2026 - Ilustrada

Manoel Carlos: Helenas foram variações de um mesmo ser – 10/01/2026 – Ilustrada

Manoel Carlos, autor que marcou a história das novelas morto neste sábado, já era experimentado em termos de teledramaturgia quando criou sua personagem mais marcante —e que, apesar do nome, não era a mesma mulher, mas variações sobre um mesmo ser feminino. Brasileira, moradora do Rio de Janeiro, de classe média alta, com um amor gigantesco pela própria família, o que a tornava capaz de tomar atitudes extremas. Assim era Helena.

Era uma citação a Helena de Troia, personagem da mitologia grega que, segundo Maneco, era uma mulher que tinha sempre um segredo a não revelar. Não por causa própria, mas para um bem maior.

E essa foi a tônica de todas as suas Helenas. Mas talvez mais até do que isso —eram personagens gregas no sentido clássico teatral da aceitação de um destino de sofrimento, após tomarem decisões extremas. Eram figuras trágicas, apesar de viverem sob uma sensibilidade acima de tudo melodramática —e advirem de uma mistura de noções dramatúrgicas tão díspares as tornava singularmente fortes, especiais.

A primeira delas surgiu em “Baila Comigo”, trama de 1981, quando Maneco estava se firmando enquanto autor de telenovelas, após passar por variadas funções na Globo. A protagonista não morava no Leblon, mas no bairro carioca de Santa Teresa, parte montanhosa entre a zona sul e o centro do Rio de Janeiro.

A trama era centrada em uma mulher que, na juventude, teve um romance com um homem mais rico e que deu à luz gêmeos desse sujeito —mas que, por não ter condições de criar os dois, cedeu um deles ao pai e se dedicou a cuidar do outro.

A escolhida para interpretá-la foi Lílian Lemmertz, uma das maiores atrizes que o Brasil já viu, então conhecida sobretudo nos palcos e no cinema —era a musa do diretor Walter Hugo Khouri. Na TV, havia participado de novelas sem muita repercussão da extinta Tupi e, na Globo, protagonizou verdadeiramente apenas “Baila Comigo”.

As cenas em que a Helena de Lemmertz revela ao filho suas mentiras do passado são um primor não apenas de texto como também de performance. Era uma atriz que não tinha pudor em chorar e ficar com os olhos vermelhos e inchados, com o rosto que nada tinha que ver com o de uma estrela de horário nobre. A novela fez sucesso e deu a Manoel Carlos a oportunidade de seguir adiante nesse ofício.

Mas ele retomou a personagem Helena só nove anos mais tarde, ainda assim em uma novela das seis, “Felicidade”, com características e exigências das altas cúpulas globais bem diferentes. Então o autor precisou segurar as rédeas nos temas polêmicos.

Ainda assim, a trama, desta vez protagonizada por Maitê Proença, não deixava de lado questões espinhosas. Também essa Helena não era leblonense —morava em uma parte tranquila de Copacabana, conhecida como Bairro Peixoto.

Em 1995, em “História de Amor”, a personagem foi interpretada por Regina Duarte, a recordista no helenismo de Maneco. Viveria outras duas vezes protagonistas com esse nome. Na trama, o grande foco era na relação tumultuada entre Helena e a filha mimada, Joyce, que engravidou de um rapaz que não quis assumir a paternidade da criança.

Duarte costuma contar que gostou tanto da personagem que sugeriu ao então mandachuva da dramaturgia da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que a história da protagonista se prolongasse por anos, em um formato no estilo série de TV. O todo-poderoso disse que não, explicando em seguida que Maneco tinha outros planos para a atriz: viver uma outra Helena em “Por Amor”, de 1997, provavelmente a mais marcante das novelas de Manoel Carlos.

Contracenando com a filha também na vida real, Gabriela Duarte, que interpretava a temperamental Eduarda, na trama Regina encarnou uma mãe que engravida na mesma época que sua descendente. As duas têm seus filhos na mesma noite, mas o bebê de Eduarda morre. Em um impulso de amor materno exacerbado, Helena cede o recém-nascido vivo para a filha e finge que o morto nasceu da sua própria barriga, e o segredo foi guardado até os últimos capítulos.

Apesar da gravidade da trama principal, pela primeira vez Maneco levava à cena uma Helena leblonense raiz, das que entraram para o imaginário popular. Aliás, as tramas helênicas de Manoel Carlos contribuiriam para a cristalizar nos corações e mentes nacionais o bairro do Leblon como um ambiente em geral tranquilo, sofisticado, em que praticamente se escutam acordes de bossa nova em uma simples caminhada pelo calçadão —o bairro se tornaria inclusive mais valorizado e aristocrático do que a vizinha Ipanema, que tinha sido retratada por décadas como o ícone do glamour carioca.

Apesar de morar no metro quadrado mais caro do país, Helena adorava comentar sobre o quanto aumentou o preço do pão na padaria da esquina, gastando páginas e mais páginas de roteiro com outras conversas corriqueiras, que se tornaram a grande marca nas tramas de Carlos. Muitas pessoas odiavam, outras achavam que fazia parte da essência das Helenas e do prazer em observá-las.

Vera Fischer assumiria o posto da personagem em “Laços de Família”, enorme sucesso de 2000. Além dos assuntos cotidianos, sua Helena ficou marcada por desmarcar compromissos profissionais sempre que a menor adversidade lhe ocorria. Na trama, ela disputava com a filha o amor de um rapaz bem mais jovem do que ela.

Em 2003, foi a vez de Christiane Torloni interpretar Helena, em “Mulheres Apaixonadas”, novamente um êxito estrondoso. Seu grande foco, ali, era a relação com as irmãs e as dificuldades afetivas por que passava depois de reencontrar um ex, com quem se envolve novamente anos depois.

A terceira Helena de Regina Duarte viria em “Páginas da Vida”, de 2006, em que a tônica da personagem era a adoção de uma criança com síndrome de Down que havia sido abandonada pela avó. Foi seguida pela primeira —e única— Helena negra, interpretada por Taís Araújo, em “Viver a Vida”, de 2009.

A última vez que Maneco escreveu uma novela com a personagem foi provavelmente o seu maior fracasso como autor. “Em Família” trazia Julia Lemmertz como Helena, uma forma de homenagear a atriz que fundou a personagem —e de encerrar sua jornada helenística com ares de ciclo fechado.

Não foi exatamente um “grand finale”, até porque já eram outros tempos, com as telenovelas já sem o poder de impacto social de antes, sobretudo com a popularização da internet e de certo desgaste da fórmula Manoel Carlos de escrever tramas.

Mas o ícone ficou, e até hoje não há turista que pise na faixa de terra entre o Jardim de Alá e o morro Dois Irmãos que não se lembre da personagem, com direito a imaginar notas de bossa nova pelo ar e verificar, na prática, que ali o pão de fato tem o preço mais alto.



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