Apesar do aparente recuo de Donald Trump acerca de um ataque ao Irã, os Estados Unidos mantém sua escalada militar no Oriente Médio. Ao menos 12 caças F-15E, especializados no tipo de ação que se espera contra Teerã, chegaram no domingo (18) e nesta segunda-feira (19) à Jordânia.
O Irã, por sua vez, mantém o alerta militar máximo. Nesta segunda, o governo voltou a dizer que qualquer ação mais focada, como por exemplo o assassinato do líder supremo, Ali Khamenei, será vista como um ato de guerra e que os EUA receberão a retaliação.
Os caças de Washington voaram de Lakenheath, no Reino Unido, para a base de Muwaffaq, 1 das 8 principais instalações americanas na região. Com eles chegaram ao menos quatro aviões de reabastecimento aéreo KC-135, vitais para uma missão de ataque, e três cargueiros C-17.
Os F-15E são um dos esteios da frota de ataque frontal dos EUA, podendo carregar 10,4 toneladas de armamentos variados. Há ao todo no Oriente Médio cerca de 35 desses aviões, além das frotas que são operadas pelos aliados americanos Israel e Arábia Saudita.
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A movimentação aérea na região só fez crescer desde que Trump disse ter sido informado de que o Irã estava “parando a matança”, em referência à repressão da teocracia islâmica aos protestos que atingem o país desde o fim de 2025.
Segundo o próprio regime, cerca de 5.000 pessoas já morreram, mas entidades de direitos humanos no exterior suspeitam que os números possam ser bem maiores. A Hrana, baseada nos EUA, investiga quase 9.000 óbitos que acredita estarem relacionados à repressão, além dos quase 4.000 que registrou.
Trump havia dito que ajudaria os manifestantes se as mortes continuassem, e os sinais de que iria promover algum tipo de ataque se acumularam na semana passada. Na quarta (14), contudo, o americano baixou a expectativa de que iria em frente.
Alguns fatores concorrem para isso, e a manutenção da escalada militar sugere que o presidente ou irá atacar, ou quer ter essa opção à mão.
Primeiro, sua posição tática: os EUA estavam sem nenhum grupo de porta-aviões na região próxima ao Oriente Médio, e tais instrumentos são importantes para dar mais poder de fogo e proteção às bases locais.
Logo após a fala de Trump, dois grupos desses supernavios passaram a se deslocar rumo às águas do entorno iraniano. Um deles, liderado pelo USS Abraham Lincoln, cruzou no fim de semana o estreito de Málaca vindo do mar do Sul da China, e pode chegar à região até o domingo (25).
Outro, centrado no USS George H. W. Bush, está no Atlântico Norte e, segundo relatos não confirmados oficialmente, irá para o Mediterrâneo se posicionar perto da costa israelense.
Segundo, a pressão de aliados no Golfo Pérsico. Países árabes, todos rivais de Teerã, se preocupam com o impacto de um conflito no trânsito do petróleo e do gás na região.
Já Israel, que travou com ajuda dos EUA uma guerra curta contra o Irã em junho passado, segundo relatos pediu para Trump adiar quaisquer ações militares. O motivo apontado por analistas israelenses é o baixo estoque de mísseis de interceptação de alta altitude do sistema Flecha, usado para abater modelos balísticos.
Eles foram essenciais para destruir cerca de 800 mísseis do tipo dos iranianos na guerra de 2025 e nos dois ataques pontuais de 2024, os primeiros embates diretos entre a teocracia e o Estado judeu. Eles ocorreram na esteira do atentado do grupo terrorista palestino Hamas, aliado dos aiatolás, contra Israel em outubro de 2023.
Mesmo com a destruição estimada de metade da capacidade de lançamento e dos estoques dessas armas por Teerã, o número remanescente pode causar bastante dano a Israel.
Se Trump irá atacar, não se sabe, mas suas forças agem como se estivessem se preparando para isso. Além das bases regionais, há reforços chegando à ilha de Diego Garcia, no Índico, considerado um ponto ideal para ataques de longa distância sem possibilidade de retaliação com o arsenal do Irã.
No fim de semana, ao menos seis cargueiros estratégicos C-17 pousaram na base. No ano passado, os EUA chegaram a enviar bombardeiros furtivos ao radar B-2 para a ilha, antes de promover o ataque a instalações do programa nuclear de Teerã.
Ao fim, contudo, aquela ação foi empreendida por B-2 que haviam saído do território americano e voado, com apoio de aviões-tanque, até o país persa.
Agora, tudo depende também do tipo de ataque que Trump realizaria. Uma decapitação do regime, com ataque mais pontual, parece menos provável: seria preciso destruir a estrutura da poderosa Guarda Revolucionária, que tem ao menos 25 unidades de comando principais no país.


