A Costa Rica, outrora conhecida por ser um oásis de estabilidade na América Central, vai às urnas neste domingo (2) sob a sombra de uma crise de segurança que levou a taxa de homicídios da nação a patamares inéditos em sua história recente.
A derrocada ocorreu durante a gestão do atual presidente, Rodrigo Chaves, o que não impediu sua apadrinhada, a ex-chefe de gabinete Laura Fernández, de chegar às vésperas do pleito como líder nas pesquisas com um discurso de continuidade.
Embora tenha um nível de aprovação que ronda os 60%, Chaves não vai tentar a reeleição, uma vez que a Constituição proíbe mandatos presidenciais consecutivos. Laura, no entanto, prometeu um alto cargo ao atual presidente caso tenha êxito na votação, de acordo com a imprensa local.
Segundo o Ciep (Centro de Investigação e Estudos Políticos da Universidade de Costa Rica), a cientista política do PPSO (Partido Soberano do Povo) era a escolha de 43,8% dos eleitores na última semana —o suficiente para ganhar já neste domingo, já que as regras locais exigem apenas 40% dos votos em um candidato para encerrar a corrida no primeiro turno.
A fragmentação da oposição ajuda: são 20 candidatos à Presidência ao todo, sendo que nenhum passa de 10% das intenções de voto, ainda segundo o Ciep. O que mais se aproxima da líder, com 9,2% das intenções de voto, é Álvaro Ramos, integrante do PLN (Partido da Libertação Nacional) e outro ex-membro do governo Chaves —ele chefiou o sistema de previdência social no início da atual gestão.
Há espaço, porém, para uma zebra, já que 25,9% dos costarriquenhos ainda não decidiram seu candidato, segundo o mesmo levantamento. A pesquisa tem margem de erro de 2,5 pontos percentuais.
Abertamente simpatizante de Nayib Bukele, Laura recebeu a bênção do presidente de El Salvador durante a campanha. “Se a próxima gestão der continuidade aos projetos desse governo, não duvido que os melhores dias da Costa Rica estão por vir”, afirmou o salvadorenho em uma mensagem por vídeo divulgada pelo governo de Chaves em setembro.
“No governo de continuidade que, com o apoio da maioria dos eleitores, liderarei a partir de 8 de maio de 2026, a segurança continuará sendo uma das maiores prioridades, como tem sido para o presidente Rodrigo Chaves”, afirmou a candidata ao agradecer pela mensagem de Bukele.
Lá Fora
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Em 2025, o índice de assassinatos no país chegou a 16,7 a cada 100 mil habitantes, um dos maiores já registrados e só um pouco menor do que o do Brasil em 2024, por exemplo. Foram 873 mortes, apenas três a menos do que no ano passado. O ano recordista é 2023, com 905 homicídios; antes disso, 2022 estava no topo da lista, com 654 mortes.
O aumento de assassinatos fez a criminalidade ser a questão central da campanha. Cerca de 40% dos eleitores apontam a violência como o principal problema do país, contra apenas 4% na época das eleições que levaram Chaves ao poder, há quatro anos.
Autoridades locais atribuem a violência, entre outros fatores, a uma mudança na rota do narcotráfico internacional, que passou a usar a Costa Rica para armazenar cocaína proveniente da América do Sul antes de transportar a droga aos Estados Unidos e à Europa.
Para resolver o problema, Laura aposta na conquista da maioria dos 57 membros da Assembleia, cargos que também estão em jogo neste domingo, para reformar a Constituição e interferir no Judiciário, que ela considera um entrave para a luta contra o crime organizado.
A história é conhecida. Foi a partir da conquista do Legislativo que Bukele destituiu juízes da mais alta corte salvadorenha e concentrou poder para levar a cabo a sua guerra contra gangues, constantemente criticada devido a denúncias de violações de direitos humanos e prisão de inocentes.
“Em que momento passamos de sonhar em ser a Suíça centro-americana a sonhar em ser El Salvador?”, questionou o candidato de esquerda Ariel Robles em um debate da campanha, apontando para a situação precária da democracia salvadorenha.
Conhecida pela neutralidade, a Costa Rica aboliu seu Exército em 1948 e se consolidou como um refúgio na América Central ao longo do século 20, quando seus vizinhos passavam por sangrentas guerras civis.
A despeito das críticas, Chaves continuou apostando em políticas linha-dura inspiradas em seu homólogo salvadorenho.
Em janeiro, o presidente começou a construção de um presídio nos moldes do Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), famoso complexo para membros de gangues de El Salvador, em uma cerimônia com a presença de Bukele.
“Durante anos, nos venderam mentiras perigosas, dizendo que o crime organizado é complexo demais para ser combatido”, afirmou Chaves. “Não é complexo. Para o Judiciário e para a maioria no Congresso, os direitos humanos dos presos são mais importantes do que os direitos das vítimas. Eles não enxergam a sequência de eventos que os dados, a ciência e as análises nos mostram: o que aconteceu em El Salvador está acontecendo aqui hoje.”


