Se a mentira tem mesmo pernas curtas, a do tangará exibe compridos filamentos. Esses passarinhos azuis de topete vermelho habitantes da mata atlântica enfeitam ninhos com fiapos longos de musgo e líquen para diminuir risco de predação.
Não é fácil atribuir intencionalidade a uma criatura com cérebro menor que um dedal, mas o tangará não deixa dúvida. Ou melhor, não deixa mais: ornitólogos da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) provaram que ninhos adornados de Chiroxiphia caudata recebem menos ataques de tucanos e sabiás em busca de ovos.
Até então, a tática do enfeite estivera sob controvérsia, pois os experimentos realizados não permitiam afirmar com certeza estatística o efeito protetor dos enfeites. Aí entraram em ação Mercival Roberto Francisco, Cassiano Bueno Martins e Dáfini Letícia Bruno, da Ufscar.
O trio publicou artigo no periódico Biology Letters detalhando outro tipo de engodo, desses que cientistas arquitetam para pegar a natureza em flagrante. O primeiro passo foi coletar ninhos abandonados de tangarás, com caudas e tudo.
Em seguida cortaram os adereços de parte deles, e depositaram nuns e noutros ovos falsos esculpidos por Martins com plasticina, massinha de modelar que não resseca. Eventuais ataques aos dois tipos de ninho foram monitorados com armadilhas fotográficas infravermelhas.
Bingo. Os ninhos com penduricalhos receberam só um décimo das investidas dirigidas aos ninhos pelados. A dupla mentira desvendou uma verdade quantificável, como quer a ciência normal.
Tangarás recorrem à forma “disruptiva” de camuflagem: ao mudar a forma do ninho, adornos dificultam a identificação por predadores dependentes da visão para escolher alvos. Não funcionaria com lagartos que se guiem pelo olfato.
Mostrou-se ainda que não se trata de disfarçar o ninho, camuflagem em sentido usual, como ninhos enfeitados com musgo numa parte da mata cheia dessas plantas. Houve o cuidado de colocá-los em áreas sem esse elemento perturbador.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
O estratagema de empregar ninhos abandonados serviu para excluir a presença de casais de tangarás, que poderiam atrair tucanos e sabiás. Sem eles por perto, só a forma dos ninhos chamaria atenção dos predadores.
“Que estudo eloquentemente concebido, com resultados tão definitivos”, disse à jornalista Christa Lesté-Lasserre, na revista Science, o ecólogo Terry Master. “Como pesquisador, você consideraria o resultado quase perfeito.”
Mais eloquente –e enigmática– se mostra a concepção da camuflagem pelos tangarás. Como terá surgido esse comportamento?
O gradualismo pressuposto na evolução darwiniana, em que uma inovação confere vantagem reprodutiva ao organismo e assim multiplica seus genes nas gerações seguintes, parece uma hipótese pobre para explicar tanta inteligência.
Alguns biólogos objetarão falar de inteligência em cérebros tão diminutos. Não se deve antropomorfizar o comportamento animal instintivo –um fenótipo estendido, mas em última instância codificado nos genes.
Talvez. Mas não será nosso conceito de inteligência ele próprio um tanto antropomórfico, limitado demais para dar conta das intenções óbvias dos tangarás e tantos outros organismos, quem sabe até plantas e fungos?
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.


