O Grammy deste ano foi política pura. Pelas indiretas —e umas bem diretas, aliás— contra o presidente Donald Trump, mas especialmente porque coroou o porto-riquenho Bad Bunny com o troféu de álbum do ano, com “Debí Tirar Más Fotos”, marcando a primeira vitória de um disco cantado em espanhol na categoria. O feito ficou maior ante a fúria dele e de outros artistas, como Billie Eilish, que aproveitaram o palco para protestar contra o ICE, órgão que vem perseguindo imigrantes nos Estados Unidos.
É simbólico, portanto, que Bad Bunny tenha falado em sua língua materna ao receber o maior prêmio da noite. Disse, em espanhol, que estava grato por ser de Porto Rico, e pediu que seus conterrâneos nunca aceitem a ideia de que são menores.
Até a metade do discurso, o porto-riquenho falou devagar para ver se os americanos aos seus pés estavam acompanhando —ou tentando, ao menos—, mas no fim parece ter desistido de se fazer entender. Estava feliz demais para se preocupar com eles.
Num breve trecho em inglês, mencionou os imigrantes e disse dedicar a estatueta do Grammy a “todas as pessoas que tiveram de sair de suas casa para seguirem os seus sonhos”. Mais cedo na noite, ele havia dito “fora ICE” no microfone ao vencer a categoria de álbum de música urbana. “Não somos selvagens, animais, alienígenas. Somos seres humanos e americanos.”
Bad Bunny saiu de lá com três estatuetas no total —ele venceu ainda melhor performance de música global, por “Eoo”, entregue antes da cerimônia principal—, feito histórico para um artista que canta principalmente em espanhol.
Ele, que hoje é o artista mais ouvido no planeta no Spotify, derrotou outros americanos que por anos foram os únicos reconhecidos por esse tipo de instituição. Competiam com ele Lady Gaga e o rapper Kendrick Lamar, além do canadense Justin Bieber e da cantora pop Sabrina Carpenter.
Bad Bunny disse ainda que ódio se combate com amor, e que é preciso ser diferente para vencer. O porto-riquenho se embananava com o inglês, e ameaçava se render ao espanhol. Terminou ovacionado pelas celebridades que lotaram a Crypto.com Arena, em Los Angeles.
Uma das estatuetas do porto-riquenho veio das mãos da colombiana Karol G, que se pôs diante do microfone falando em espanhol, exaltando latinos, e só depois disse “good evening”, boa noite em inglês. Ao lado dela, o humorista Marcello Hernández disse que a sua mãe o acordava cedo para faxinar a casa ao som da cubana Gloria Estefan, que estava na plateia.
Essa ode à cultura latina foi reforçada pelo apresentador Trevor Noah, que aproveitou o Grammy para satirizar os Estados Unidos nas mais diversas frentes. Foi até Bad Bunny em ocasiões diferentes e brincou com o fato de que o cantor não pôde cantar na cerimônia em função de seu contrato de apresentação no intervalo do Super Bowl —de tanta insistência, os dois acabaram entoando o refrão de “DTMF” junto a uma banda.
Perguntou ainda ao cantor se poderia viver em Porto Rico, caso a situação nos Estados Unidos não melhorasse. “Você sabe que Porto Rico também faz parte dos Estados Unidos, certo?”, respondeu Bunny.
Embora Porto Rico faça parte do território americano, há um abismo cultural entre a ilha e a terra de Trump. Por isso, aliás, Bad Bunny se recusou a levar sua turnê para lá no ano passado, com medo que fãs latinos fossem perseguidos pelas tropas do ICE.
Outro discurso de forte caráter político foi o de Billie Eilish, uma das artistas mais jovens entre os indicados, e queridinha do Grammy. Laureada em uma das categorias principais, canção do ano, por “Wildflower”, ela mal usou seu tempo para agradecer. Foi direto ao ponto para dizer que “ninguém é ilegal em terra roubada”.
“A gente precisa continuar a se manifestar. Nossas vozes são importantes”, seguiu, ao lado do irmão Finneas O’Connell, com quem escreveu não só a canção celebrada, como grande parte de sua obra.
Mais cedo, a britânica Olivia Dean, laureada artista revelação —categoria que a própria Eilish venceu há sete anos—, também falou de política. “Estou aqui como neta de imigrantes. Sem eles, não estaria aqui. Eu sou resultado da luta deles. Essas pessoas precisam ser celebradas”.
Dean, favorita na categoria após despontar nas paradas com três sucessos no fim do ano passado, bateu a britânica Lola Young, voz de “Messy”, que viralizou no TikTok.
Mas Young não saiu de mãos vazias, e viu “Messy” ser reconhecida melhor performance pop solo. Subiu ao palco confusa, dizendo não ter preparado discurso, e dando gritos empolgados. Mais cedo, Young também havia gritado, mas para cantar, uma das performances mais impressionantes da noite. Foi uma retomada para Young, que ficou meses longe dos palcos para cuidar da saúde após desmaiar num show.
Se apresentou neste Grammy também Bruno Mars, duas vezes —primeiro com Rosé, do Blackpink, com quem lançou “Apt.”, e depois sozinho, mostrando a inédita “I Just Might”, carro-chefe do seu novo álbum.
Sabrina Carpenter, sem novas estatuetas para a conta, embora indicada em seis categorias, cantou “Manchild”, em que tira sarro de marmanjos que agem como moleques, cercada de dançarinos homens.
Lady Gaga também foi ao palco e apresentou “Abracadabra”, sucesso do “Mayhem”, disco que lhe rendeu o Grammy de melhor álbum pop. Ela agradeceu ao noivo, aos colegas com quem trabalha, e depois se dirigiu às mulheres, pedindo que ela nunca se deixem calar. “Nunca deixem de lutar por suas ideias. Lutem por suas músicas, lutem como produtoras. Garantam que serão ouvidas.”
Uma das artistas mais indicadas da noite, sete no total, Gaga levou três —venceu também em gravação de dance pop e gravação remixada.
Mas foi o rapper Kendrick Lamar quem mais levou gramofones para casa nesta edição, vencendo cinco das nove categorias em que disputava. Ele disputava com a canção “Luther”, premiada em gravação do ano, e com o álbum “GNX”.
Afora o tom político, o Grammy seguiu como de praxe. Durou mais tempo que o necessário, com um final esticado, como sempre, e convidou artistas para homenagear colegas da indústria que morreram no ano passado, como Ozzy Osbourne e D’Angelo.
No fim, pelo menos, surpreendeu com uma participação inusitada de Cher, que se confundiu no palco após receber um Grammy pelo conjunto da sua carreira. Mas depois do discurso de agradecimento, achou que sua participação tinha chegado ao fim e estava quase deixando o palco, antes de anunciar o prêmio de gravação do ano para Kendrick Lamar e SZA por “Luther”.
A condução de Trevor Noah, em paralelo, foi afiada o suficiente para prender a atenção durante as mais de três horas de premiação. Zombou das ações judiciais que Donald Trump tem aberto contra veículos que se manifestam contra ele, das ameaças do presidente de invertir na Groenlândia e de sua recente aparição em documentos do caso do milionário Jeffrey Epstein. “Faz sentido que Trump queira uma nova ilha, agora que a ilha de Epstein se foi”, disse.
Nenhuma celebridade escapa das suas piadas —sobrou até para a rapper Nicki Minaj, que nesta semana deu as mãos a Donald Trump em um evento e afirmou ser fã número um do presidente. Noah lembrou da ausência dela no Grammy, e brincou que Minaj certamente ainda estava na Casa Branca. Os artistas gargalharam.


