Como Bad Bunny narra a história de Porto Rico em músicas - 11/02/2026 - Ilustrada

Como Bad Bunny narra a história de Porto Rico em músicas – 11/02/2026 – Ilustrada

Há duas semanas, Bad Bunny consolidou um feito que extrapolou a música pop e tocou no nervo político dos Estados Unidos.

Ao vencer o Grammy de álbum do ano com “Debí Tirar Más Fotos”, tornando-se o primeiro artista a conquistar a principal categoria com um disco inteiramente em espanhol, e, sete dias depois, protagonizar o show do intervalo do Super Bowl, cantando apenas em sua língua materna, o porto-riquenho subverteu a lógica histórica de domínio cultural americano.

Benito Antonio Martínez Ocasio é, tecnicamente, cidadão dos Estados Unidos. Mas é também fruto de um território americano que frequentemente é tratado como periferia descartável do império. É assim que uma boa parte dos EUA parece enxergar a ilha caribenha. Em 2024, o comediante Tony Hinchcliffe disse, em um comício de Donald Trump, que “há literalmente uma ilha flutuante de lixo no meio do oceano agora mesmo. Acho que se chama Porto Rico”.

Em um momento de recrudescimento do discurso anti-imigrante e, principalmente, anti-latino nos Estados Unidos, Bad Bunny vem construindo uma discografia que funciona como uma aula de história que reivindica o espaço de Porto Rico. Esse projeto atinge sua forma mais explícita no sexto álbum de estúdio do cantor, lançado em janeiro de 2025, “Debí Tirar Más Fotos”.

Para entender a dimensão política da obra, é preciso entender a posição de Porto Rico no mapa. A ilha foi colônia espanhola de 1493 a 1898, quando passou ao controle dos Estados Unidos após a Guerra Hispano-Americana. Em 1917, os porto-riquenhos receberam cidadania americana por meio da Lei Jones e, em 1952, o território tornou-se oficialmente um “Estado livre associado”.

Na prática, porém, é um território não incorporado dos EUA. Seus habitantes são cidadãos americanos, mas não podem votar nas eleições presidenciais, não têm representação com direito a voto no Congresso, não têm acesso pleno a benefícios federais e não participam de decisões centrais sobre economia. Porto Rico segue sendo, no século 21, uma colônia sob outro nome.

Essa condição atravessa a geração de Bad Bunny. Nascido em 1994, ele pertence ao que muitos chamam de “geração da crise”. São jovens que cresceram sob a recessão econômica, vendo cortes orçamentários, o fechamento de escolas e a migração em massa da ilha.

Em 2017, o furacão Maria devastou a infraestrutura da ilha e expôs a precariedade de seu sistema elétrico, deixando milhões sem energia por meses. Foi nesse contexto que surgiu “El Apagón”, faixa do penúltimo álbum do cantor, “Un Verano Sin Ti” (2022), acompanhada de um minidocumentário.

Ambos denunciam a privatização da rede elétrica e os incentivos fiscais que atraíram investidores estrangeiros, encarecendo o custo de vida e intensificando processos de gentrificação. “Eu não quero ir embora daqui/ Eles que deveriam ir/ Eles ficam com o que me pertence”, diz a letra.

Consolidando sua manifestação política, Bad Bunny lançou “Debí Tirar Más Fotos”, o seu “álbum mais porto-riquenho”, como chamou o disco.

A faixa de abertura, “Nuevayol”, inicia com um grito que remete a Nova York, cidade que se tornou, ao longo do século 20, o principal destino da migração porto-riquenha. O sample de “Un Verano en Nueva York”, clássico da salsa do grupo El Gran Combo de Puerto Rico, atravessa décadas ao transformar a salsa setentista em base de dembow, ritmo central do reggaeton contemporâneo, criando uma linha do tempo sonora que conta como a identidade porto-riquenha se reconstruiu fora de seu território.

Em “La Mudanza”, Bad Bunny faz referência direta à repressão política do século 20 ao lembrar que pessoas foram mortas por levantar a bandeira porto-riquenha –alusão à Lei da Mordaça, de 1948, que criminalizou símbolos nacionalistas sob domínio americano. Foi essa bandeira proibida, num tom azul mais claro, que Benito levantou no Super Bowl deste ano. “Aqui, mataram gente por levantar a bandeira/ Por isso é que agora eu levo ela pra onde eu quiser”.

A canção vai além da mudança física e discorre sobre deslocamentos impostos por um modelo econômico que empurra moradores para fora da ilha. “Daqui ninguém me tira, daqui eu não saio.”

O ponto mais contundente do álbum surge em “Lo Que Le Pasó a Hawaii”, em que Bad Bunny estabelece um paralelo entre Porto Rico e o Havaí, ambos territórios anexados pelos Estados Unidos em 1898.

O cantor faz um alerta sobre o presente porto-riquenho, reforçando as críticas sobre o estímulo à chegada de investidores abastados e a conversão de moradias populares em propriedades de luxo voltadas ao turismo –tal como aconteceu com o Havai. “Eles querem tomar meu rio e também a praia/Eles querem meu bairro e que a vovó vá embora”.

O cantor sintetiza a diáspora recente de jovens forçados a migrar em busca de um futuro melhor. “Você pode ouvir o fazendeiro chorando, mais um se foi/ Ele não queria ir para Orlando, mas os corruptos o expulsaram.”

Esse discurso não se limita às músicas. Para cada faixa do álbum, Bad Bunny lançou vídeos com textos explicativos sobre momentos-chave de Porto Rico, escritos pelo historiador Jorell Meléndez-Badillo. As visualizações, que acumulam milhões de acessos, funcionam como uma aula pública de história que vai da colonização espanhola à atual dependência econômica de fundos externos.

No curta que acompanha o álbum, o cineasta Jacobo Morales perambula por um bairro irreconhecível, dominado por novos moradores e negócios voltados a estrangeiros. A imagem que reforça a pergunta central da faixa –o que resta de um país quando seus habitantes já não conseguem viver nele?



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