Depois que Lula disse, num evento do PT, que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e que o partido precisava ir falar com esse público sem esperar o aval dos pastores, a fala circulou pela internet como sendo evidência de um projeto de cooptação da fé, uma ameaça à identidade religiosa disfarçada de discurso eleitoral.
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Uma amiga evangélica tentou separar as coisas e disse que, por pior que fosse a fala, não havia consequência espiritual, apenas política. O grupo da família não aceitou a distinção. No fundoque estava em jogo não era a declaração de Lula nem teologia cristã; era o lugar dela como evangélica numa disputa de pertencimento.
Quem se engaja politicamente com intensidade não fica mais triste, fica mais instável. No estudo “O Custo Emocional do Engajamento Político”, no qual 1.788 observações foram feitas ao longo de oito semanas, Alexander Walker e seus colegas da Universidade Brown mediram a que ponto o estado emocional de cada participante oscilava dia a dia e descobriram que essa volatilidade, e não o humor médio, é o que prediz ansiedade.
O extremismo ideológico respondia por 9% da variação nas oscilações diárias; a polarização afetiva, por mais 5%. A implicação é mais incômoda do que parece: se o problema fosse tristeza acumulada, você trataria reduzindo a exposição. Se o problema é a desregulação emocional, o que está sendo afetado é a capacidade de processar qualquer coisa, não só política.
Mas por que as pessoas se engajam apesar desse custo? Grupos humanos constroem coesão por meio da diferenciação, e a diferenciação política estabelece fronteiras morais claras e rápidas. O que o mecanismo não explica é a escala. Por que agora disputas políticas estão ocupando o espaço de conversas sobre família, fé e comunidade?
Sabe-se que as fontes tradicionais de pertencimento vêm enfraquecendo há décadas: nos Estados Unidos, a participação em associações cívicas caiu pela metade da década de 1970 até a de 2000; no Brasil, a frequência religiosa entre jovens de 18 a 29 anos recuou 14 pontos percentuais só de 2012 a 2022.
Quando as estruturas que organizavam identidade e comunidade começam a falhar, a política ocupa esse espaço com uma eficiência que nenhuma outra esfera da vida contemporânea consegue replicar. Afinal, está disponível a qualquer hora, é emocionalmente intensa e não exige presença. O problema é que a única moeda que ela tem para oferecer pertencimento é o inimigo em comum.
Consequentemente, o pertencimento por conflito tem como custo o fato de que o inimigo precisa continuar sendo inimigo, pois, sem ele, o vínculo perderia a razão de existir. Minha amiga não estava tentando defender a “esquerda” quando disse que a fala de Lula não teria consequências espirituais. Mas, para o grupo, ela estava reduzindo a ameaça, e reduzir a ameaça é exatamente o que um membro leal não faz. Na prática, trataram a distinção dela como traição, não como discussão teológica.
É importante lembrar que movimentos que duraram e transformaram estruturas não foram construídos assim. Os movimentos pelos direitos civis no século 20 tinham inimigos nomeados e os confrontavam, mas sua base era formada por comunidades, associações, sindicatos e igrejas, e por uma ideia concreta do mundo que queria construir. A indignação contra injustiças, mas não o ódio, era combustível. Mas quando o ódio vira fundação, o movimento dura enquanto o inimigo durar e a resolução de problemas comuns fica em segundo plano.
A instabilidade afetiva é um sintoma de escassez de pertencimento real, e a política é o analgésico disponível. Funciona o suficiente para continuar sendo procurado, mas não o suficiente para atender à necessidade de significado e de relacionamentos profundos.
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