A violência sexual contra uma estudante de 17 anos, em Copacabana, é o retrato de um desalinhamento civilizatório. Para quem está em Marte: uma menor foi emboscada, abusada, denunciou, a Polícia Civil indiciou quatro homens por estupro, e o país entrou em ebulição.
O que interessa neste caso é o descompasso. Meninas chegam à vida adulta com um vocabulário que nossas mães não tiveram: consentimento, assédio, abuso. Muitas já são capazes de identificar uma agressão, nomeá-la, procurar a polícia, apesar da vergonha e da culpa. Essa consciência é recente, fruto da última década em que fomos chatas, histéricas, exageradas, mas ouvidas por muitas outras.
Do outro lado, homens da mesma idade ainda operam por códigos jurássicos: o direito ao corpo alheio, o pacto do grupo, a cultura do estupro como linguagem de poder. A revolução, como se percebe, só aconteceu para metade da sala. São jovens no mesmo tempo histórico, mas com alfabetizações morais opostas: elas aprenderam cedo a gramática da igualdade porque é questão de sobrevivência. Eles continuam folheando um livro embolorado de privilégios, onde o “não” é só ruído, a vergonha é sempre delas e a violência é a prova de pertencimento.
Sem jogar tudo na conta da família, o que a escola está ensinando, além de matemática? Educação não é só treinar para o Enem. É preparar para a vida em comum e isso passa pelo reconhecimento da igualdade entre homem e mulher. Sem essa base, muitos meninos crescem sem uma bússola ética, como herdeiros de um privilégio invisível: o de ser ouvido, obedecido e servido, até quando a resposta é não. Sem isso, a conta chega em delegacia, hospital e tribunal; e quem paga quase sempre é a mulher.
E o poder público? Não basta “ter política” no papel se o Estado só funciona como zelador da tragédia. Rede de proteção é indispensável, mas a prevenção precisa começar na escola, na formação de professores, no diálogo diário que inclua meninos e homens. Falta um pacto de sociedade para pôr homens e mulheres na mesma página da história.
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