Enfrentou o autoritarismo da ditadura militar - 11/03/2026 - Cotidiano

Enfrentou o autoritarismo da ditadura militar – 11/03/2026 – Cotidiano

Marcelo Cerqueira foi personagem crucial na história da redemocratização brasileira ao tornar-se um dos articuladores da Lei da Anistia no fim da ditadura militar, da convocação para a Constituinte de 1988 e da mobilização pelas Diretas Já.

Cerqueira nasceu em 1938 no Rio de Janeiro. Filho de um casal de classe média do Grajaú, na zona norte da cidade, ele entrou na Faculdade Nacional de Direito (que depois passaria a integrar a UFRJ) e lá ingressou na militância política que o nortearia por toda a vida.

Em 1957, ingressou na Juventude Comunista e trabalhou como jornalista, ajudando a fundar a revista Movimento, vinculada à UNE (União Nacional dos Estudantes). Em 1964, pouco antes da instauração da ditadura no país, ele foi eleito vice-presidente da entidade estudantil na chapa encabeçada por José Serra.

Depois do golpe militar, em 1º de abril daquele ano, Cerqueira passou a ser perseguido e precisou se exilar. Ele seguiu para a Bolívia, depois para o Chile e voltou para o Brasil em 1965. No retorno, foi preso e acabou sendo solto após cem dias.

Depois de ser solto, ele concluiu a faculdade de direito e deu início à sua vida profissional. Primeiro, advogou em causa própria, nos processos em que estava envolvido, depois passou a defender outros perseguidos políticos —sempre sem cobrar honorários.

“Ele usou o diploma de direito como um escudo para proteger aqueles que eram perseguidos pelo Estado. Seguiu por toda a vida uma regra própria: nunca cobrar honorários das vítimas da ditadura. Independentemente de serem de família com recursos. Se era uma questão política ou de princípios, ele não cobrava”, lembra o sociólogo Paulo Baía, 74, amigo de Cerqueira por mais de 50 anos.

Durante toda a carreira, defendeu mais de mil pessoas processadas com base na Lei de Segurança Nacional e atuou em casos de desaparecidos políticos durante o regime militar.

“Enquanto muitos tinham um compreensivo medo do aparato repressivo, o Marcelo seguia de cabeça erguida e com muito equilíbrio. Tinha uma enorme capacidade de acolher as pessoas, pacificar, lidava bem até mesmo com as ameaças que sofria, e não foram poucas.”

Em 1968, no ano em que foi decretado o AI-5, Cerqueira concluiu o doutorado em direito. Uma década depois, em 1978, ele se candidatou a deputado federal pelo Rio de Janeiro pelo MDB. “Foi um período muito difícil, mas muito importante para a redemocratização. Foi nesse período que se definiram os eixos da anistia e o Marcelo teve grande papel nisso”, diz o amigo.

Em 1981, Cerqueira foi vítima de dois atentados, um contra seu carro e outro contra sua casa.

Ao encerrar o mandato como deputado, retornou à advocacia, passou a dar aula em cursos de direito e se candidatou à Prefeitura do Rio. Em 2000, tornou-se presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros.

Foi casado três vezes e teve quatro filhos. Em 2016, sofreu um acidente doméstico que o deixou tetraplégico. “Ele teve dificuldade de lidar com esse acidente, porque sempre foi muito ativo, gostava muito de sair e viajar. Tinha uma grande paixão pela Mangueira e lamentava muito não poder mais desfilar”, disse Paulo.

Cerqueira morreu no dia 28 de fevereiro, aos 87 anos, por complicações de pneumonia e infecção generalizada. Ele deixa a mulher, Sônia, os filhos Juliana, Maria Clara, Ana Lúcia e Pedro, netos e bisnetos.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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