O Brasil não é um país de descontrolados - 29/03/2026 - Marcos de Vasconcellos

O Brasil não é um país de descontrolados – 29/03/2026 – Marcos de Vasconcellos

O presidente Lula acertou ao falar, em evento na última semana, sobre a necessidade de promover uma campanha para ensinar a população a administrar o orçamento doméstico. Educação financeira é extremamente necessária e pode, sim, ser um bom uso do dinheiro público. Perdeu a razão, entretanto, quando culpou um suposto descontrole nos gastos pessoais pelo endividamento recorde das famílias.Ao mencionar que as pequenas compras pela internet —as “coisinhas” do dia a dia— acabam drenando o salário ao fim do mês, o presidente culpa a vítima pelo mal que a acomete. O brasileiro não está endividado por ser um descontrolado, um “aloprado”, para usar um termo que Lula popularizou há mais de uma década. As dívidas são o sintoma de um país onde o custo do dinheiro é estruturalmente alto e a mobilidade social fica a cargo da sorte, via Mega-Sena ou jogo do tigrinho.O crédito que endivida os brasileiros não é aquele utilizado como alavanca para investir ou empreender, na busca por um futuro melhor. Famílias entram nos juros rotativos do cartão porque não conseguem pagar as contas do mês, lutando pelo presente.

E os juros do cartão, por aqui, são altos demais, como bem disse o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também na última semana. Ficam acima de extorsivos 100% ao ano. Há outras linhas de crédito ainda piores. As distorções do mercado precisam ser corrigidas com urgência. Não se pode, entretanto, fingir que são a raiz do problema.O dinheiro no Brasil custa caro para o consumidor, em grande parte, porque a taxa básica de juros definida pelo Banco Central de Galípolo é a segunda mais alta do mundo. Se o prêmio para para emprestar dinheiro para a União (risco soberano) é de quase 15% ao ano, é óbvio que quem corre o risco de altíssima inadimplência, emprestando para endividados, cobrará muito mais.A Selic segue nas alturas porque não conseguimos controlar a inflação, em parte por um cenário externo de incertezas e guerras, em parte por ação e omissão do Executivo de Lula, do Legislativo e até mesmo do Judiciário.O país carrega um histórico longo de inflação alta. Soma-se a isso uma instabilidade fiscal recorrente, em que a trajetória da dívida pública nunca está totalmente ancorada, além de um ambiente jurídico que ainda gera incertezas na recuperação de crédito. Cada item desses adiciona seus pontos nos juros.

Com eleições batendo à porta e adversários subindo nas pesquisas, é de se esperar que o presidente e candidato ao quarto mandato escolha um “inimigo público número 1” para atacar.Está no manual dos populistas, independente da ideologia declarada: buscar um vilão etéreo, contra o qual será fácil reunir aliados. Os cartões de crédito na última semana ocuparam um lugar que já foi das casas de apostas, ou bets (que, depois de pagarem R$ 9,95 bilhões em impostos em 2025 parecem ter deixado de ser um problema social). Há poucos anos, o lugar pertenceu à ameaça do fantasma do comunismo.Torço para que as promessas de investir em educação financeira e de impedir a cobrança de juros abusivas sigam para além do palanque. Gostaria ainda mais que o governo tratasse com seriedade um problema no qual sua responsabilidade vai muito além de multas e cursos, parando de tratar os sintomas como doença e o paciente como vírus.


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