Ninguém nega que sua candidatura será de direita, mas isso não significa apagar os pecados do adversário no mesmo campo. Principalmente em um panorama de ultrapolarização.Alguns indicadores vão mostrar se o governador vai propor uma pauta baseada nas demandas do agronegócio, do conservadorismo e da Faria Lima (por mais equivocadas e perniciosas aos trabalhadores que, na minha opinião, muitas delas sejam, a defesa delas faz parte da democracia) ou se irá operar apenas como ajudante.Por exemplo, entre uma e outra cacetada em Lula, o que é esperado, Caiado terá que questionar o desvio de grana dos gabinetes do então deputado federal Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, resgatar o faz-tudo Fabrício Queiroz e denúncias de lavagem de dinheiro usando chocolate, bem como tratar da aquisição de patrimônio, como a mansão de mais de R$ 6 milhões que o hoje senador comprou em Brasília. Ou ainda se Flávio usou a Agência Brasileira de Inteligência durante o mandato do pai para produzir relatórios com o objetivo de orientar a sua defesa no caso das “rachadinhas”.Isso só para citar casos pessoais, fora tudo o que ocorreu durante o governo passado. O próprio governador, que é médico, bateu de frente com o então presidente durante a pandemia por causa do negacionismo de Jair. Poderia questionar os mais de 700 mil mortos que estão na conta do clã Bolsonaro. Ou, mais recentemente, o prejuízo de empresas e empregos brasileiros causado pela ação do irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo. Para tentar impedir a condenação do pai, ele ajudou a convencer o governo Donald Trump a baixar o famigerado tarifaço de 50% contra a economia do país.A principal pergunta não é sobre quem Caiado atacará mais, mas quem ele terá coragem de enfrentar de verdade. Porque fazer oposição a Lula rende aplauso fácil em certos auditórios, difícil é encarar o próprio campo sem baixar a cabeça. Se escolher o conforto da claque, vira eco de Bolsonaro e pode se tornar ministro em caso de derrota do incumbente. Se escolher o risco do confronto honesto, pode até desagradar aliados, mas ganha densidade política.Entre ser linha auxiliar de Flávio Bolsonaro ou protagonista de si mesmo, não há meio-termo sustentável. E quem tenta equilibrar os dois lados acaba, quase sempre, escorregando para o papel do figurante que será lembrado sem saudades. Algo que o Padre Kelmon conhece bem.
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