É tempo de olhar para o céu. Afinal, acabou na noite desta sexta-feira (10) a primeira viagem tripulada à Lua no século 21.
Depois de viajarem ao satélite natural da Terra e mostrarem ao mundo imagens nunca antes vistas, os astronautas voltaram em segurança e têm agora um período de readaptação.
Toda a cobertura da missão Artemis 2 me fez lembrar um espetacular episódio do Café da Manhã, o podcast mais importante do seu dia. “Por que olhamos para o céu?”, perguntava-se Gabriela Mayer, minha colega de Redação, no finalzinho de janeiro.
Spoiler: não há uma resposta única, mas a reflexão é mais do que válida.
A mesma reflexão, porém, me fez pensar em por que olhamos para o chão. E algo parecido pode ter passado pela cabeça do repórter Gabriel Gama e do infografista Gustavo Queirolo.
Juntos, eles fizeram um amplo levantamento, publicado há alguns dias na Folha, relacionando os índices de desmatamento no Brasil à renda média das cidades “campeãs” na prática de transformar floresta em chão.
OK, há um apelo do agronegócio em nome da produção de alimentos e outros fatores que já renderam ao Brasil o apelido de “celeiro do mundo”. E há ainda quem diga que o desmatamento, mesmo que acelere o efeito das mudanças climáticas, pelo menos traz progresso às regiões onde ele acontece.
A principal conclusão da reportagem de Gabriel e Queirolo é que as 50 cidades brasileiras que mais destroem a vegetação têm renda 27% inferior à média dos municípios do país.
Para chegar a esta conclusão, foram analisados os dados de desmatamento coletados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e os dados de rendimento mensal dos municípios, de acordo com a base do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Das 50 cidades campeãs na destruição de ecossistemas, 47 apresentam rendimento abaixo da média. Pela proporção já dá para notar que não é pouca coisa, mas alguns casos são ainda mais gritantes.
No Amazonas, por exemplo, a cidade de Lábrea é a líder de desmatamento. Lá, a renda média mensal é de R$ 1.590,46, só pouco mais que a metade da média nacional, que era de R$ 2.850,64, em 2022 (ano dos dados mais recentes compilados pelo IBGE).
Para onde, então, está indo o progresso?
Fiz a pergunta errada de propósito. A certa seria: “Há progresso?”.
E a Patrícia Pinho, ouvida pela reportagem, responde. Ela é uma das autoras do próximo relatório do IPCC, o painel da ONU sobre mudanças climáticas, e diz: “Existe um mito de que o desmatamento traz progresso e desenvolvimento humano, mas a literatura científica mostra que isso não é verdadeiro”.
O repórter Gabriel Gama acertou também em fazer as perguntas certas (e talvez você já tenha se perguntado também). Se 47 das 50 cidades estão abaixo da média, o que aconteceu com as outras três? Haveria ali algum bom exemplo ou boa prática que poderia servir de lição aos outros 94% dos municípios do levantamento?
Resposta curta: não.
Um pouco mais longa: as três cidades ficam no estado de Mato Grosso. Possuem renda acima da média nacional os municípios de Aripuanã (R$ 3.209,40), Nova Bandeirantes (R$ 2.875,32) e Paranatinga (R$ 2.852,79).
Lembra que eu falei do bolo? Aparentemente, ele pode até crescido nessa tríade afortunada, mas como bem lembrou a Jaçanan Milani, professora de engenharia florestal na UFMT, o aumento da renda média não significa distribuição da riqueza.
Segundo ela, essas regiões são caracterizadas pela concentração de grandes propriedades rurais nas mãos de pouquíssimos fazendeiros.
Ou seja: a renda mais alta puxa a média mensal para cima, mas isso não se traduz em progresso de fato e desenvolvimento social para as demais camadas da população.


