O 'tesouraço' de Flávio Bolsonaro - 18/04/2026 - Vinicius Torres Freire

O ‘tesouraço’ de Flávio Bolsonaro – 18/04/2026 – Vinicius Torres Freire

O vago plano econômico de Flávio Bolsonaro é em tese impopular, ao menos quanto a contas do governo. Prega redução de impostos e cortes de despesas. Quanto menos tributação, maior o tamanho da contenção de gastos. A rigor, porém, há promessa de aumento de impostos, de início (corte de gasto tributário é isso).

O risco de protesto é evidente, do topo ao chão da escala de renda. A questão fiscal será problema para qualquer governo, mas o modus operandi bolsonarista em relação à divergência é problema ainda maior. Quanto ao mais, o candidato a Bolsonaro Segundo diz que as “diretrizes e lições” são as do governo Bolsonaro Primeiro.

O plano é apenas em tese impopular. Javier Milei, na Argentina, inspiração bolsonarista, fez ajuste fiscal inédito, afora aqueles de tempos de grande guerra ou de hiperinflação terminal, chegando a cortar em 30% o valor real de rendas de pessoas que recebiam pagamento do Estado. Milei começa a cair pelas tabelas, mas a “motosserra” autoritária não levou seu prestígio a nível negativo nem impediu vitória eleitoral nos primeiros dois anos.

Décadas de sofrimento econômico, raiva de esquerdas e do sistema político e a política do entretenimento odiento das redes podem incentivar sacrifício voluntário, se não servidão sectária. Decerto o caso brasileiro está longe do descalabro argentino –exige menos “tesouraço”, como diz Flávio. Por outro lado, nossos costumes e acordões são menos tolerantes das reviravoltas “hermanas”.

Isto posto, corte é problema, ao menos no início do arrocho. O gasto federal é 43% Previdência (INSS), 18% pessoal, 15,5% de outros benefícios sociais (Bolsa Família, BPC, seguro-desemprego etc.), 13,8% saúde e educação (tudo isso dá 90% da despesa). Redução do gasto tributário implica aumento de imposto para classe média alta e rica que ganha com o Simples, setores empresariais, Zona Franca; talho de isenções de IR para quem gasta com saúde e escola privadas, para cesta básica e outras isenções “sociais”.

Dado o chicote do arrocho, qual será a cenoura ou a manobra diversionista? Um terror de segurança pública, como a de Nayib Bukele, de El Salvador, outra inspiração bolsonarista?

Folha Mercado
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Como será no Congresso? Imobilismo ou barganha terminal? Bolsonaro Primeiro instaurou o semiparlamentarismo de avacalhação em abril de 2020. Entregou boa parte da governança a Arthur Lira (PP-AL), grão-duque das emendas e da eternização do centrão, e, depois, também a Ciro Nogueira (PP-PI), grande amigo de Daniel Vorcaro. Flávio vai tirar os golpistas da cadeia, a começar pelo pai, o que pode criar mais instabilidade. Para abafar protestos, tentará desde logo implementar a “democracia iliberal”?

Claro que se descreve aqui um cenário quase racional. Bolsonaro Primeiro levou para o governo gente sem formação intelectual, lunática, incapaz, perversa e golpista; os Bolsonaro passaram a vida no esquema do dinheiro vivo, na pregação de genocídio e ditadura e na confraternização com milicianos e torturadores, por exemplo. Pode haver de colapso na anomia a repressão organizada. Mas a elite brasileira, boa parte direitista chucra por tradição, que bancou desgraças como Jânio, ditadura, Collor e Jair, parece dizer que virá um tucanato redivivo (coitado) com Deus, pátria e família; que a breve passagem dos golpistas pela cadeia e a experiência nacional de 2022 vão desanimar novo golpe. Pode ser. Ou pode vir o bananismo iliberal.


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