Arquiteta, transformou as ruas de Belo Horizonte - 09/05/2026 - Cotidiano

Arquiteta, transformou as ruas de Belo Horizonte – 09/05/2026 – Cotidiano

Eveline Prado Trevisan estava decidida a ser arquiteta aos seis anos de idade. Ela daria os primeiros passos concretos para realizar esse sonho menos de dez anos depois.

Filha de um técnico em química e de uma cozinheira, Eveline nasceu em Belo Horizonte e viveu parte da infância e juventude em Contagem, na região metropolitana.

O principal motivo para saírem da capital e viverem na cidade vizinha foi mobilidade urbana. A família não tinha carro à época, e a condução até a fábrica da indústria Magnesita era penosa para Décio, seu pai.

Aos 15, Eveline foi aprovada em um curso técnico em edificações. Foi quando participou do planejamento e da construção de casas junto com famílias que haviam perdido tudo nas enchentes. A experiência só serviu para reafirmar sua vontade de seguir aquele caminho.

“O que eu queria de verdade era trabalhar pelo coletivo”, ela disse durante uma apresentação do programa TEDx Talks.

Anos depois, já formada em arquitetura e urbanismo, Eveline trabalhava para a Prefeitura de Belo Horizonte quando começou a participar das reuniões do orçamento participativo da cidade. Parte do seu trabalho era ouvir a população sobre quais deveriam ser as prioridades no investimento do dinheiro público.

O contato com o público engajado na discussão da cidade a fez enxergar uma maneira ideal de fazer urbanismo.

Como conta a amiga Liliana Hermont, a prática a convenceu de que era verdade mesmo o que escrevia o sociólogo francês Henri Lefebvre, célebre por cunhar o termo “direito à cidade”: de nada adiantaria planejar espaços urbanos sem conversar com as pessoas que usam a cidade e ainda imaginar que elas se comportariam conforme o planejado.

Quando coordenou o plano diretor cicloviário da capital mineira, ela aplicou essas ideias de forma pioneira, criando grupos de trabalho totalmente abertos ao público para discutir os projetos. Eveline nunca escondeu que o processo para tornar a cidade mais acolhedora aos pedestres e ciclistas foi duro, cheio de discussões difíceis, recuos, erros e acertos coletivos.

Depois, seu método para construir áreas urbanas mais seguras ao redor de escolas tinha como base a escuta de crianças.

Ela e seus colegas perguntavam aos alunos o que eles queriam nas ruas do entorno dos locais onde estudavam. Faziam seus projetos a partir dos desenhos dela. Foi assim que surgiram as Zonas 30, nome que faz referência ao limite de velocidade, em bairros da periferia.

“Tenho alegria de dizer que hoje sou capaz de caminhar por ruas que eu sonhei”, ela disse em 2020.

Eveline morreu no dia 30 de março por complicações de um câncer, aos 58, deixando a mãe, a irmã, o marido, dois filhos e um neto.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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