“A minha rotina é maravilhosa, eu amo a minha rotina”, diz Lourenço Mutarelli. Ultimamente ela tem consistido em acordar às 3h da manhã, desenhar, escrever, ouvir música, fazer serviços domésticos, lutar contra o álcool e tentar fumar menos que oito cigarros por dia enquanto convive com uma cardiopatia extremamente grave.
Segundo ele, a condição deixou 70% de seu coração necrosado após duas paradas cardíacas sofridas em 2020. “Tudo que eu tenho visto e vivido é nessa ótica de despedida”, diz o escritor.
Seu novo e décimo romance é “Masuaki e/ou Não Deixe os Cachorros Latirem Sozinhos”, editado pela Companhia das Letras. A obra acompanha personagens atravessados por insônia, música, drogas, lembranças e relações instáveis, enquanto sonho, vigília e delírio passam a ocupar o mesmo espaço.
Ao longo da narrativa, cenas cotidianas começam a se deformar, e identidades, memórias e aparências deixam de parecer fixas.
Ele começou o projeto depois de experimentar uma autobiografia feita de metáforas, de alegorias e de alguns fatos reais em “O Livro dos Mortos: Uma Autobiografia Hipnagógica”, de 2022. A ideia agora foi escrever um livro mais distante da sua vida real. “Eu queria fazer um livro totalmente surreal, que fugisse da minha vida”, afirma Mutarelli.
“Mas, no decorrer da escrita, algumas coisas reais muito fortes aconteceram. A realidade, para variar, acabou invadindo o meu trabalho. E um desses aspectos é essa cardiopatia. Eu olho para as coisas de outra forma. Venho me tratando há quase seis anos, estou bem. Mas é uma sombra. Tenho 30% de coração. Estou no corredor da morte.”
A crueza dessas declarações pode surpreender o leitor esporádico, mas não aquele que acompanha a vida e a obra de Mutarelli. Primeiro em fanzines, a partir de 1988, depois em quadrinhos publicados por editoras maiores e, finalmente, nos romances, cuja estreia foi com “O Cheiro do Ralo”, em 2002.
Seus personagens desajustados, obsessivos, às vezes paranoicos, às vezes perdedores, costumam viver isolados, em rotinas muito fechadas. No caso de Masuaki, é uma figura real, mas bem fora do normal.
O personagem foi inspirado por Masuaki Kiyota, um jovem médium japonês que um adolescente Mutarelli viu no programa Fantástico, da Globo, no fim dos anos 1970. A figura dizia conseguir imprimir fotografias com a mente, também entortava talheres e foi chamado de “Uri Geller japonês”. Mutarelli ficou obcecado pela história.
“Eu tentava fazer o mesmo em casa”, conta. “Eu não tinha Polaroid, tinha uma câmera Xereta. Colava na testa e mandava revelar.” Anos depois, Kiyota admitiu a fraude e disse que não era mais médium.
“Eu queria escrever um livro que terminasse com a frase ‘Masuaki Kiyota imprimia fotos com a mente’”, afirma. O livro de fato acaba assim. “De alguma forma, o que estou tentando fazer no meu trabalho é imprimir fotos na mente das pessoas.”
A construção do romance também passou por outro retorno pessoal: os quadrinhos. Em uma das primeiras cenas do livro, o personagem folheia uma edição de Little Nemo, uma HQ de mais de cem anos.
Mutarelli afirma que havia se afastado dos quadrinhos nos últimos tempos, mas voltou a ler e fazer depois de comprar uma edição recente dessa obra. “Aquilo abriu um portal”, afirma.
Para ele, que sofre de insônia braba, Little Nemo fala profundamente, pois trata-se de histórias sobre os sonhos de um garotinho. “Gosto muito desse estado intermediário em que você não está nem acordado nem dormindo”, diz. “É um momento em que uma coisa invade a outra.”
A rotina atual do escritor gira em torno dessa vigília constante. Mutarelli diz dormir entre três e quatro horas por noite. Em geral, deita entre nove e dez da noite, sofre para apagar e acorda antes do amanhecer. “Meu dia é longo”, resume, meio que se lamentando.
Durante a madrugada, tem trabalhado em novos projetos de quadrinhos e narrativa gráfica. Um deles, ainda mantido sob sigilo contratual, marca seu retorno mais direto ao desenho. Outro já tem título: “Me Perdoe, Senhor Stevenson”, livro que sairá pela Comic Zone, editora ligada ao escritor Ferréz.
A obra surgiu a partir de uma encomenda inspirada em “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”. No processo, porém, Mutarelli passou a relacionar a história à morte do irmão, usuário de crack. “O monstro acabou virando o vício”, afirma.
Ele também fala abertamente sobre o próprio alcoolismo. Segundo o escritor, o consumo aumentou durante a pandemia. Hoje, afirma que tenta controlar o problema enquanto convive com a cardiopatia. “Eu luto muito contra o álcool”, diz.
Com o cigarro, a relação continua diária. Mutarelli calcula fumar entre sete e oito cigarros por dia. “Eu não sou um exemplo, eu sou uma advertência”, brinca, a sério.
Apesar do quadro de saúde, ele rejeita a ideia de estar derrotado. Nos últimos dias, uma entrevista em vídeo ao podcast Coffee & Cigacasts, de Yuri Moraes, apareceu nas redes sociais.
No trecho, ele dizia que sua mãe o considerava um fracassado profissionalmente por eventualmente pedir dinheiro a ela. Mutarelli diz que o trecho circulou fora de contexto. “Não me sinto fracassado”, diz. “Mas sei que socialmente posso ser visto assim.”
Ao lembrar a própria trajetória, cita um episódio da juventude: “Eu entrei numa farmácia como gerente, fui para o caixa, do caixa fui para o balcão, do balcão fui para o pacote. Depois me botaram para botar umas coisas em ordem lá”, conta. “Eu não conseguia me adaptar. Era muito desqualificado para a vida prática”, diz.
O escritor nunca conseguiu viver apenas dos royalties acumulados ao longo da carreira, iniciada nos quadrinhos nos anos 1980. Ao todo, soma mais de 20 títulos entre HQs, romances e peças de teatro.
Seus quatro primeiros romances foram adaptados para o cinema: “O Cheiro do Ralo”, dirigido por Heitor Dhalia; “Natimorto”, de Paulo Machline; “Quando Eu Era Vivo”, adaptação de “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” feita por Marco Dutra; e “Jesus Kid”, filmado por Aly Muritiba.
“O Cheiro do Ralo” acabou se tornando o caso mais popular. O longa estrelado por Selton Mello ainda circula em plataformas e segue sendo citado por leitores e espectadores quase 20 anos depois do lançamento. “Tem gente que repete frases do filme no dia a dia”, diz Mutarelli. “Isso é lindo.”
Hoje, aos 62 anos, Mutarelli diz que ainda sente medo da morte, embora tente lidar com ela de forma direta. “Às vezes dá medo”, afirma. “Mas eu adoro isso aqui. Minha vida tem sido incrível.”


