Poucos são lembrados tanto com o título de “cineasta de São Paulo” quanto Ugo Giorgetti. De forma que, como diz o cineasta, já se cansou de ser lembrado por esse chavão. “Um crítico falou que o meu cinema é político. Só que isso não está na superfície, tem que mergulhar um pouquinho para ver”, afirma o diretor, que faz 84 anos no final do mês.
Além da inegável cartografia que Giorgetti faz da Pauliceia, é essa complexidade que ele espera que esteja evidente nas sessões de dez de seus filmes, de 28 de maio a 3 de junho, no Espaço Petrobras de Cinema, com ingressos de R$ 20 a inteira.
O autor, nascido e criado em Santana, na zona norte da cidade, é o primeiro homenageado no Festival Folha de Cineastas de São Paulo, feito em parceria com o jornal, e que ainda destacará Jeferson De, Juliana Vicente e Juliana Rojas até o final do ano.
Na programação está o seu maior sucesso, “Boleiros”, de 1998, uma coletânea de reminiscências dos anos áureos do futebol, mas sobretudo filmes que Giorgetti julga como pouco vistos, como o próprio “Boleiros 2”, de 2006, um relato melancólico daquilo que o esporte se tornou.
Desta seleção, o mais antigo é “Sábado”, de 1994, uma comédia num prédio do centro da cidade que foi de símbolo de luxo no passado a reduto de uma população marginalizada.
Experiente diretor de filmes publicitários, Giorgetti ri deste mundo do seu ganha-pão ao mostrar uma equipe que, ao gravar um comercial num elevador daquele edifício —muito similar ao Martinelli—, é desafiado por esse Brasil que eles preferem não ver.
Um país dos desvalidos, por onde trafegam os papa-defuntos, vividos por Otávio Augusto e Tom Zé, que ficam presos num elevador com um cadáver e uma das publicitárias —Maria Padilha.
“É minha única comédia do começo ao fim”, diz o diretor, que à época havia se consolidado com filmes como “Jogo Duro” e “Festa”, ambientadas em um único cenário. É o mesmo princípio das suas duas ficções mais recentes —”Uma Noite em Sampa”, de 2016, e “Dora e Gabriel”, de 2020.
No primeiro, um grupo não consegue voltar para casa após o motorista da excursão sumir e precisa enfrentar o medo que sentem do centro da cidade. O outro acompanha o papo entre um homem e uma mulher que dividem um porta-malas depois de serem sequestrados. “Este filme foi lançado de forma criminosa”, diz o diretor, lembrando que a obra chegou às salas no início da reabertura, ainda durante a pandemia.
O texto também é central em filmes como “Solo” —em que Antônio Abujamra vive um velho que recapitula sua vida para a câmera com sarcasmo— e “A Cidade Imaginária” —sobre os sonhos dos imigrantes italianos que chegavam ao país no final do século 19.
Giorgetti ressalta ainda sua afeição por outros trabalhos ambiciosos, como “O Príncipe”, de 2002. Aqui, além do centro, a Vila Madalena, o viaduto Sumaré e as marginais pontuam o percurso de um homem que volta a São Paulo após 20 anos em Paris para encontrar uma cidade onde a miséria convive com coquetéis onde a cultura se rende à promiscuidade do mercado e do poder.
Apesar do tom pessimista —e profético— quanto a este país desenhado pelo no governo de Fernando Henrique Cardoso, Giorgetti lembra que foi atacado “violentamente por críticos, amigos e parentes” eufóricos pela eleição de Lula na época deste lançamento. “Havia a expectativa da virada.”
Notável ainda “Cara ou Coroa”, de 2012. Apesar de se passar durante a ditadura militar, um cenário já saturado no cinema nacional, o trabalho é um raro exemplo que não mostra a face mais violenta da época e, ao mesmo tempo, faz um debate sobre engajamento político e a vida cotidiana.
“A ditadura pertencia ao período, mas não era o período”, diz o diretor. “O tempo era terrível, mas não impedia de você namorar, de você ir ao Pacaembu, ver um jogo, rir de uma comédia no cinema.”
A época aparece também no inédito “Alberto Dines – Vínculos de Liberdade”, sobre o importante jornalista, morto em 2018. “É uma daquelas personalidades que o Brasil produz pouco, infelizmente”, diz Giorgetti. Na sessão do filme que encerra a mostra, no início de junho, haverá um debate com o diretor, mediado pelo crítico Inácio Araujo.
Em apenas uma hora, o documentário destrincha a carreira do intelectual, destacando seu trabalho como editor-chefe no Jornal do Brasil, enfrentando a censura do regime militar, seus estudos mundo afora e o pioneirismo na crítica da própria imprensa. Para isso, costura relatos do próprio Dines —como um longo depoimento ao Museu da Pessoa— e entrevistas com colegas e com sua viúva, a jornalista Norma Couri.
Autor de livros fundamentais para o ofício, Dines também foi uma espécie de ombudsman avant la lettre, neste jornal, com a coluna “Jornal dos Jornais”, e nome importante na educação, com o projeto do Labjor, na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, ao lado do linguista Carlos Voigt —hoje presidente da Fundação Conrado Wessel e que convidou Ugo Giorgetti para fazer o filme.
Veja a programação
‘Alberto Dines – Vínculos de Liberdade’
Ter. (26), às 20h30, para convidados; sáb. (30), às 19h10; qua. (3), às 19h10, seguida de debate com Ugo Giorgetti e Inácio Araujo
‘Solo’
Qui. (28), às 17h30; qua. (3), às 17h30
‘Boleiros – Era uma Vez o Futebol’
Qui. (28), às 19h10
‘Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos’
Sex. (29), às 19h10
‘Uma Noite em Sampa’
Sex. (29), às 17h30; ter. (2), às 19h10
‘O Príncipe’
Sáb. (30), às 17h30
‘Sábado’
Dom. (31), às 19h10; ter. (2), às 17h30
‘Dora e Gabriel’
Dom. (31), às 17h30
‘A Cidade Imaginária’
Seg. (1º), às 17h30
‘Cara ou Coroa’
Seg. (1º), às 19h10


