Existe algo em comum entre os vitrais instalados no Mercado Municipal, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), na Casa das Rosas, na Catedral da Sé e em inúmeros outros locais de São Paulo.
Todos foram produzidos pela renomada Casa Conrado, empresa que dominou esse mercado a partir de 1888, quando foi inaugurada, e que sempre primou pela excelência de suas obras.
A Casa Conrado ainda existe, mas saiu das mãos da família fundadora. Funciona como um pequeno ateliê de restaurações na região de M’Boi Mirim, na zona sul da cidade, mas nos tempos gloriosos teve dezenas de funcionários e uma parceria com o escritório do arquiteto Ramos de Azevedo que incluía vitrais em muitas de suas construções.
Durante décadas ela foi praticamente hegemônica no mercado, atendendo à demanda religiosa e profana não só em São Paulo, como em outras partes do Brasil.
Não havia milionário que não quisesse ter um deles em seu casarão. Para as instituições, as obras da Conrado também eram um grande símbolo de poder. Os clientes mais fiéis, porém, eram as igrejas.
Pelo menos 23 delas em São Paulo, como a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a de Santa Cecília e a dos Dominicanos, contam com seus vitrais.
A empresa foi criada pelo imigrante alemão Conrado Sorgenicht (1835-1901), que trouxe a técnica para o país, seguindo uma longa tradição medieval. Até então as vidraças instaladas aqui eram todas importadas da Europa.
Ele não desenhava. Trazia vidro de fora e o colava com um filete de chumbo usando os serviços de artistas que contratava.
Foi um de seus herdeiros, Conrado Sorgenicht Filho (1869-1935), com grande pendor artístico, que deu maior impulso ao negócio. São de sua lavra, por exemplo, os painéis do Mercado Municipal e do Palácio das Indústrias. Para a obra do mercado, ele viajou pelo interior de São Paulo em busca de referências visuais.
O uso de vitrais nas construções da cidade teve dois períodos áureos: de 1920 a 1935 e de 1950 a 1960, quando o negócio já estava sob o comando de Conrado Adalberto Sorgenicht (1902-1994), primeiro proprietário da empresa nascido no Brasil.
Entre as obras mais importantes de sua gestão estão os 48 vitrais do hospital Beneficência Portuguesa e os da Faap, um mosaico de vidro com 58 obras de diferentes artistas, como Tarsila do Amaral e Cândido Portinari.
Em meados dos anos 1960, houve um abandono no uso desse tipo de vidro nas construções brasileiras. A arquitetura moderna deixou-os de lado ao eliminar os excessos decorativos e optar pela transparência e pela praticidade.
Além disso, eles custavam caro, exigiam manutenção e sua produção e instalação eram muito demoradas. Até as igrejas deixaram de fazer encomendas.
Nesse período, a Casa Conrado entrou em crise e passou a sobreviver só com restaurações. Seu proprietário foi trabalhar como professor no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Conrado Adalberto teve apenas uma filha, Iolanda, que se casou aos 16 anos contra sua vontade. Por causa disso, ele não a deixou assumir a empresa e a repassou para sua secretária. Dessa forma, os Sorgenicht saíram do negócio definitivamente. Isso aconteceu em 1989.
A Casa Conrado tornou a arquitetura de São Paulo mais bela e colorida. Ao longo de sua existência produziu centenas de obras primorosas, fala-se em 600 em todo o território nacional.
Os painéis coloridos de vidro surgiram no Oriente entre os séculos 10 e 11, mas logo foram adotados nas igrejas e catedrais góticas da Europa, conferindo mais beleza e espiritualidade ao ambiente. Ao longo do tempo deixaram de ser usados e se tornaram patrimônio histórico.
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