Animais encontram refúgio em cemitérios de São Paulo - 14/06/2026 - Ambiente

Animais encontram refúgio em cemitérios de São Paulo – 14/06/2026 – Ambiente

Silenciosos, cemitérios servem de refúgio para animais em meio ao intenso movimento da cidade de São Paulo. Oito locais são frequentados por 425 espécies, a maioria de aves, segundo um estudo.

O levantamento foi apresentado no Avistar (Encontro Brasileiro de Observação de Aves), no Jardim Botânico de São Paulo, em maio deste ano.

O trabalho abrange os dados os cemitérios da Vila Mariana (43), Vila Formosa (65), Chora Menino (24), Tremembé (45), Parque dos Girassóis (45), Consolação (20), Parque das Cerejeiras (141) e outro particular (42).

Entre as aves estão o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), o gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus), a coruja-orelhuda (Asio clamator) e o pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus).

Outros animais identificados foram o sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), o teiú-gigante (Salvator merianae), o sapo-cururu (Rhinellaicterica), rato-doméstico (Mus musculus) e o gambá-de-orelha-preta (Didelphisaurita).

Celina Yoshiara, bióloga e coordenadora do estudo, diz que os dados fazem parte do Programa de Manejo da Fauna, proposto a partir de 2020 para os cemitérios, em conformidade com as exigências da licença ambiental de operação, da prefeitura, e de um parecer técnico.

Com os resultados do estudo, a bióloga quer reforçar a valorização de cemitérios como espaços multifuncionais na combinação de memórias, contemplação da natureza e políticas públicas mais integradas.

“Nos Estados Unidos e na Europa, já é comum a prática desses espaços serem utilizados como multifuncionais. Aqui no Brasil isso é pouco falado, pouco explorado”, frisou.

De acordo com o estudo, os cemitérios são importantes para a biodiversidade local e migratória devido ao baixo fluxo de pessoas e às árvores mais velhas com tronco maiores, além da presença de gramíneas, insetos, flores e da oferta de alimentos.

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“No cemitério da Consolação, o mais antigo naquele centro urbano, a gente registrou a presença da garça-branca-grande [Ardea alba]. Eu pensei: ‘como que uma garça foi parar lá?’. Aí quando abri o mapa, eu vi que é uma área boa de pesca”, disse Celina.

Árvores de troncos com diâmetro superior a 30 cm e altura acima de 12 metros permitem interações entre diferentes grupos, como aves, invertebrados, répteis e mamíferos, e maior campo de visão. Lugar seguro para ninhos ou descanso.

“Os pica-paus, por exemplo, dependem de árvores mais desenvolvidas por causa dos insetos e, também, para se reproduzir. Eles fazem os ocos. E os papagaios e periquitos se beneficiam desses ocos. Então é uma cadeia que se forma”, acrescentou.

A iniciativa abordou, também, a manutenção dos exemplares arbóreos, avaliando questões como raízes cobertas por cimento e falta de adubo, podas malconduzidas, supressão indevida da vegetação, danos por roçado inadequado e incêndios causados por velas.

Na lista de gestão de planos de mitigação de riscos estão avaliações rotineiras por especialistas, destinação correta de resíduos orgânicos e inorgânicos, cercamento de covas e adaptações em estruturas para evitar acidentes e cuidados com os animais domésticos no ambiente.

O cemitério Memorial Parque das Cerejeiras, no Jardim Ângela, zona sul, concentrou 141 espécies silvestres nativos, o maior número registrado do estudo em um só local, sendo 123 de aves, 10 da herpetofauna (répteis e anfíbios) e 8 de mamíferos.

O local recebeu quatro campanhas da pesquisa, duas em estações úmidas e duas em estações secas, com monitoramentos diurnos e noturnos. Ao redor, em um raio de dois quilômetros do Memorial Parque das Cerejeiras, 357 espécies da fauna foram identificadas e podem se relacionar com o cemitério.

O Memorial Parque das Cerejeiras tem 305 mil metros quadrados, dos quais mais metade pertence a uma APP (área de preservação ambiental). Um projeto resultou no plantio de cerca de 27 mil mudas nativas da mata atlântica no cemitério.

“Nós tínhamos áreas que não eram florestadas e uma contrapartida da licença da reserva legal estabeleceu que 166 km² seriam voltadas ao reflorestamento. E agora estamos em uma fase de enriquecimento dessas áreas”, afirmou o diretor do cemitério, Daniel Arantes.

O espaço conta ainda com espécies domesticadas, como galinha-d’angola (Numida meleagris) e pavão-azul (Pavo cristatus). “Por meio de uma iniciativa de controle de pragas e vetores biológico, a gente introduziu galinhas-d’angola, porque elas comem muito insetos, bem como ajudam em relação a cobras”, disse Arantes.



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