A forma como os tributos são arrecadados está mudando. E não é só o sistema brasileiro que passa por reformas.
Carga tributária em patamares recordes, fiscalização em tempo real, impostos sobre a economia digital e protecionismo são a realidade em muitas economias da OCDE , de acordo com o relatório “Nova ordem tributária no Brasil”, da consultoria PwC. As agendas da justiça fiscal e da sustentabilidade completam o quadro. A tributação do “trabalho” da IA ou da produção automatizada é apontada como uma possibilidade para o futuro.
Em entrevista à coluna, Carlos Coutinho, sócio e líder de Consultoria Tributária da PwC Brasil, afirma que a economia global passa por uma transformação estrutural simultânea em três frentes: o deslocamento da geração de riqueza para ambientes digitais e intangíveis, o aumento das pressões de gastos sobre os governos nacionais e o desarranjo geopolítico com ascensão do protecionismo.
A inteligência artificial atua como elemento adicional nesse cenário. “Quando se junta esses fenômenos e mistura tudo isso com uma revolução da inteligência artificial, se dá um cenário de movimentação de placas tectônicas na economia global”, afirma.
A primeira dessas forças é a digitalização da economia. Ao romper o vínculo entre criação de valor e localização física, a IA obriga governos a criar novos tributos digitais e a usar algoritmos para fiscalizar em tempo real. A reforma tributária brasileira exemplifica essa adaptação: a tributação do consumo migrou do modelo de origem (onde se produz) para o destino (onde se consome), redistribuindo a carga entre setores e aumentando a participação do setor de serviços na arrecadação.
A segunda força é a pressão fiscal e demográfica. Endividamento público, envelhecimento populacional e demanda crescente por gastos levam governos a ampliar a base tributária sobre as empresas, vistas como alvo mais aceitável para aumento de carga. No Brasil, a carga tributária atingiu 32,4% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2025. Entre as economias da OCDE, a carga média chegou ao patamar recorde de 34,1% do PIB.
A aprovação do Adicional da CSLL, que representa a adoção parcial do imposto mínimo global de 15% do Pilar 2 da OCDE/G20, é outro sinal concreto dessa tendência.
FolhaJus
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A fragmentação geopolítica é a terceira frente. Tarifas e incentivos à relocalização produtiva deixam de ser apenas instrumentos de arrecadação e passam a servir como armas de disputa entre nações. O relatório cita como exemplo direto as tarifas recíprocas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros desde abril de 2025, cujas regras seguem sendo alteradas.
A quarta força é a agenda de justiça fiscal, que amplia o escrutínio sobre grandes fortunas e setores de alta lucratividade. No caso brasileiro, essa lógica aparece na reforma do consumo —com o mecanismo de cashback para famílias de baixa renda, por exemplo— e também na chamada “reforma fatiada” da tributação sobre a renda.
Por fim, a transição climática combina incentivos a investimentos sustentáveis com penalidades para atividades poluentes. No Brasil, essa dualidade aparece no Imposto Seletivo, que incidirá sobre bens e serviços prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, na redução de tributos para veículos elétricos e biocombustíveis, no Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono e no Fundo Clima do BNDES.
Segundo pesquisa da própria consultoria, 83% dos executivos brasileiros já consideram a área tributária relevante para decisões estratégicas de negócio, e 84% esperam que a IA generativa transforme o planejamento fiscal nos próximos três anos.
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