Um motociclista trafegava na manhã do dia 18 de janeiro na estrada do M’Boi Mirim, no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, quando foi atingido por um motorista que invadiu a contramão em uma tentativa de ultrapassagem. Apesar da chegada do resgate, ele morreu no local.
O acidente envolvendo o condutor de 52 anos foi um dos 238 casos de motociclistas mortos na capital paulista nos seis primeiros meses deste ano.
Segundo dados do Infosiga (sistema estadual que mede a letalidade no trânsito), divulgados nessa quarta-feira (15), o primeiro semestre de 2026 foi o segundo mais letal em acidentes envolvendo motos no município desde o início da série histórica em 2015 —perde apenas para 2024, com 239 óbitos, apenas um a mais.
Na comparação entre os semestres, o número de motociclistas mortos cresceu 8,2% no município —nos primeiros seis meses de 2025 foram 220 casos. No período comparado, a frota subiu 4,5% —passou de 1,32 milhão para 1,38 milhão, segundo a Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito).
Somente no mês passado, 50 pessoas que estavam em motos morreram na capital paulista. Foi o mês com maior número desse tipo de vítima no trânsito no ano.
Apesar dos números, a gestão Ricardo Nunes (MDB) afirma que a ampliação da segurança viária é um trabalho contínuo na cidade.
Em nota, a prefeitura diz que o projeto pioneiro da faixa azul (sinalização no asfalto para trânsito exclusivo de motos) conta com 233,3 km desde 2022, beneficiando diariamente cerca de 500 mil motociclistas.
“Além disso, a cidade conta com mais de mil bolsões de espera [boxes nos semáforos] para motocicletas”, afirma.
No geral, as mortes em todos os acidentes de trânsito se mantiveram estáveis. Foram 489 óbitos neste semestre contra 483 nos primeiros seis meses de 2025, com 1,2% a mais.
Houve queda, de 22%, apenas nas vítimas que estavam em automóveis —foram 38 pessoas.
Os dados do Infosiga mostram que houve queda de 6% no número de pessoas mortas no trânsito do estado de São Paulo no primeiro semestre (foram 2.896 registros).
No caso das motos, ocorreram 1.327 óbitos em 2026, cerca de 1,3% menos que no ano passado.
“A cidade está destoando dos outros municípios paulistas”, afirma Mariana Novaski, coordenadora de Dados e Vigilância da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global.
Ela aponta para uma tendência de alta nas estatísticas de mortes de motociclistas e cita a falta de fiscalização de velocidade das motocicletas como um dos principais problemas da cidade. “Há um descaso”, afirma.
Como mostrou a Folha, um levantamento realizado entre motociclistas internados no Hospital das Clínicas, em São Paulo, apontou que 95% dos acidentes que os levaram até a hospitalização ocorreram em vias que não contavam com fiscalização eletrônica de velocidade.
Conforme o trabalho, em quase 70% dos casos relatados não havia sinalização de limite de velocidade no local onde ocorreu o acidente.
Os dados fazem parte de um estudo realizado pelo Instituto Cordial em parceria com a Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego).
“A velocidade é um fator extremamente importante [em sinistros], mas no caso das motos é ainda mais dramático, porque o motociclista está completamente desprotegido”, afirma.
Na capital paulista, houve leve alta no número de vítimas de atropelamentos —passou de 187 para 190. O primeiro semestre de 2026, porém, é o quarto mais letal da série histórica.
A Prefeitura de São Paulo diz que foram implantadas pela atual gestão municipal cerca de 10 mil novas faixas de travessia para pedestres desde 2021 e a redução de velocidade de 50 km/h para 40 km/h em 24 vias.
Ana Carolina Nunes, diretora de relacionamento da organização Cidadeapé – Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo, afirma que mudanças no desenho viário em áreas conhecidas, como locais próximos a eixos de transporte público, poderiam diminuir a quantidade de atropelamentos.
“O mapa de calor [do Infosiga] mostra onde existem concentrações [de atropelamentos]”, diz.


