O jornal britânico The Guardian afirmou em editorial desta terça-feira (14) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transforma atos de soberania brasileira em “prática comercial desleal”.
A publicação cita o sistema de pagamento via Pix e a responsabilização de plataformas digitais por conteúdos antidemocráticos e discriminatórios como ações de soberania do governo Lula (PT), mas diz que as medidas são vistas pelo presidente dos Estados Unidos como atos contrários a seus interesses e, por isso, são classificadas como desleais.
O jornal também afirma que a família Bolsonaro atua no cenário como aliada de Trump, quadro que o editorial chama de preocupante.
“O Brasil construiu um sistema público de pagamentos e reivindicou jurisdição sobre plataformas tecnológicas americanas. Trump reinterpretou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a compactuar com isso”, afirmou a publicação no editorial.
O texto faz menção à decisão de junho de 2025 do STF (Supremo Tribunal Federal) de responsabilizar plataformas digitais por publicações de usuários relacionadas a discursos de ódio e conteúdo antidemocrático.
A decisão da corte é mencionada como resposta “às mentiras online que ajudaram a alimentar a tentativa fracassada de golpe de extrema direita de Jair Bolsonaro em 2023”. O ex-presidente está em prisão domiciliar
A publicação aponta que a medida da corte, com impacto em empresas como o X (ex-Twitter), do empresário Elon Musk, esteve atrelada ao tarifaço dos Estados Unidos sobre importações brasileiras, “reclamando que os juízes haviam obrigado empresas de tecnologia americanas a remover material ‘político’”.
Nesta quarta-feira (15), o país anunciou uma nova leva de tarifas a produtos brasileiros, alegando práticas comerciais injustas que passam por motivos de atrito antigos, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até queixas com o Pix.
A nova medida se deu depois que o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi aos Estados Unidos, há cerca de uma semana, defender, nas palavras do jornal, que práticas consideradas desleais do Brasil eram “culpa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.
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O editorial do The Guardian menciona que Flávio pediu a suspensão das tarifas até as eleições, sob o argumento de que assumiria o poder em breve.
“Com a decisão da Casa Branca [de aplicar tarifas] prevista para quarta-feira, foi um ato de audácia extraordinário [de Flávio]. Ele não estava apenas fazendo lobby contra as tarifas. Estava se apresentando para ser o presidente brasileiro preferido de Trump. [Flávio] Bolsonaro é menos carismático que seu pai, mas compartilha o mesmo anti-esquerdismo simplista, as políticas punitivas de lei e ordem e as guerras culturais da extrema direita”, afirmou a publicação.
Lula é citado no texto como um dos políticos “mais bem-sucedidos deste século” e candidato à frente nas pesquisas eleitorais. O jornal também lembrou a trajetória dele como líder sindical e suas ações de redistribuição de renda, apontando que elas reduziram a pobreza extrema no Brasil.
A proposta do petista de responsabilização das plataformas é citada pelo jornal como tentativa de “combater a desinformação antidemocrática”, na contramão do que quer Trump, que, segundo a publicação, “rejeita a proposta de Lula pela soberania brasileira” e “acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre a esfera informacional do país”.
O jornal também destacou a oposição do governo americano de que o Brasil tenha autonomia sobre seu sistema financeiro e infraestrutura de pagamentos, em referência ao Pix.
“Outra questão de soberania diz respeito a quem controla o sistema financeiro brasileiro e se uma infraestrutura de pagamentos pública bem-sucedida, fora do controle americano, pode existir na América Latina”, aponta o jornal The Guardian.
O Pix é citado pela publicação como “fácil de usar”, “popular” e garantidor de uma infraestrutura digital que reduz a dependência de redes controladas por estrangeiros, ameaçando os lucros dos cartões Visa e Mastercard.
O jornal termina sinalizando que pagamentos também são dados e podem se tornar “ferramentas de vigilância e pressão”, e que infraestruturas de pagamento nacionais podem se tornar infraestruturas de desenvolvimento soberano de IA. “A verdadeira ofensa não é o protecionismo, mas a autonomia”, disse a publicação sobre as ações do governo petista.


