Celso Lungaretti tornou-se guerrilheiro aos 18 anos de idade. Vivia o turbilhão das passeatas estudantis contra o regime militar na cidade de São Paulo quando organizou uma base de estudantes secundaristas dispostos a aderir à resistência armada em 1969, ano seguinte à publicação do AI-5 (Ato Institucional nº 5, o mais duro da ditadura).
Em janeiro e fevereiro de 1970, estava no grupo de militantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) que treinava técnicas de guerrilha com Carlos Lamarca no Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo. Decidiu deixar o grupo após saber da morte de um amigo de infância e companheiro da VPR.
Foi preso em abril daquele ano, levado à sede do DOI-Codi do Rio de Janeiro e submetido a sessões de tortura que incluíam espancamentos e choques elétricos. As agressões que sofreu durante quase um ano na prisão deixariam marcas em seu corpo (teve um tímpano perfurado, gerando deficiência auditiva até o fim da vida) e sequelas emocionais irreparáveis.
Lungaretti foi acusado de ser o responsável pelas informações que levaram o Exército à descoberta de um acampamento da VPR na região, e a uma operação que levou à prisão de quatro militantes —Lamarca e outros conseguiram escapar ao cerco militar após mais de 40 dias de operação. O tempo mostraria que era falsa a versão que o colocava como delator do acampamento.
Sob tortura, Lungaretti deu aos militares a localização de um acampamento anterior, desativado havia dois meses. Por décadas houve especulação de que essa pista levou o Exército ao segundo acampamento, próximo àquele desativado, do qual ele não tinha conhecimento. Essa versão foi reconhecida definitivamente pelo historiador Jacob Gorender (autor de “Combate nas Trevas”) em 2004, ao ficar claro que o Exército havia chegado à posição de Lamarca por meio de outras fontes.
Lungaretti tornou-se crítico de Lamarca —classificando-o como “comandante desastrado” em texto publicado na Folha em 1994— e considerava que havia sido abandonado pela VPR após a versão mentirosa do cerco no Vale do Ribeira se espalhar entre militantes. Foi obrigado a gravar um depoimento no qual dizia-se arrependido e desaconselhava jovens a entrar na luta armada.
Jornalista formado na USP, chegou a usar pseudônimos para assinar reportagens na imprensa e conseguir trabalho, como contou em entrevista à BBC News Brasil em 2024.
Em 2005, publicou o livro de memórias “Náufrago da Utopia”, no qual recontou sua experiência na VPR. Ele tinha um blog com o mesmo título no qual publicava textos analíticos sobre a conjuntura política brasileira e global.
Ao longo das últimas décadas, mantinha-se irredutível na militância por direitos humanos e foi um dos principais organizadores da campanha pela libertação de Cesare Battisti, ex-militante comunista condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos na década de 1970.
Havia acabado de concluir o segundo volume de “Náufrago da Utopia”, dessa vez organizado em reflexões sobre as aspirações e os fracassos da esquerda no mundo.
Lungaretti morreu no dia 18 de julho em São Paulo, após uma internação hospitalar para tratar fraturas de uma queda. Ele deixa a mulher, Nadja, e as filhas Luana e Laura.
coluna.obituario@grupofolha.com.br
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