Gêmeos reconstroem vidas após 2 anos como reféns em Gaza - 07/10/2026 - Mundo

Gêmeos reconstroem vidas após 2 anos como reféns em Gaza – 07/10/2026 – Mundo

Nesta quarta-feira (7), os israelenses marcarão o terceiro aniversário do dia mais letal de violência da história do país. Na manhã de 7 de outubro de 2023, um feriado judaico, o grupo terrorista Hamas liderou uma ofensiva transfronteiriça da Faixa de Gaza contra o sul de Israel, invadindo bases militares e comunidades próximas à fronteira e perseguindo pessoas que participavam de um festival de música.

Segundo autoridades israelenses, os homens armados mataram cerca de 1.200 pessoas e levaram outras cerca de 250 para Gaza como reféns. Os ataques deflagraram uma guerra devastadora no território palestino, onde dezenas de milhares de pessoas foram mortas na contraofensiva israelense, e grande parte da região foi reduzida a escombros.

Os reféns foram devolvidos a Israel em etapas. Dezenas morreram em cativeiro, e seus corpos foram levados de volta para casa. Alguns dos sobreviventes escreveram memórias. Outros se casaram ou tiveram filhos.

Gali e Ziv Berman, irmãos gêmeos, tinham 26 anos quando foram capturados em Kfar Aza, o kibutz onde moravam. Um ano depois de serem libertados, eles tentam se concentrar em reconstruir suas vidas. Gali estuda direito, governança e diplomacia na faculdade, enquanto Ziv está em um novo relacionamento.

A jornada de volta a algo parecido com a normalidade está longe de terminar, e os horrores do 7 de Outubro ainda assombram os dois irmãos e o país.

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O retorno

Quando soldados israelenses levaram os irmãos Berman para fora de Gaza em 13 de outubro de 2025, após dois anos de cativeiro em que foram separados, espancados, privados de comida e mantidos em sua maior parte em túneis úmidos sob Gaza, Ziv disse que eles tinham “milhares de perguntas”. Eles não sabiam se a família havia sobrevivido ao ataque do 7 de Outubro. Queriam saber as últimas notícias sobre seu time de futebol favorito, o Maccabi Tel Aviv.

Os irmãos também se perguntavam o que havia acontecido com Kfar Aza. Descobriram que mais de 60 dos cerca de mil moradores do kibutz haviam sido mortos, e outros 19, aproximadamente, sequestrados. “Queríamos ir para casa”, disse Ziv. “Eles nos disseram que ela tinha desaparecido.”

Eles viram a mãe, Talia, pela primeira vez em uma base militar perto da fronteira com Gaza e souberam que os familiares mais próximos estavam vivos. “Ficamos sem palavras”, disse Gali. “Não havia palavras.”

Os pais haviam se mudado para Beit Guvrin, um kibutz mais distante de Gaza. Os irmãos passaram a primeira semana de liberdade em um hospital, mas saíram certa vez para visitar o pai, que sofre de Parkinson avançado e demência. “Ele olhou para nós, assimilou o que estava acontecendo e começou a chorar”, recordou Gali.

Pouco depois, eles se reencontraram com Emily Damari, uma amiga próxima e vizinha de Kfar Aza que havia sido sequestrada com eles no 7 de Outubro. Damari foi libertada meses antes dos irmãos e fez campanha pela libertação deles. Em agosto, Gali e Ziv dançaram no casamento dela com Danielle Amit, uma influenciadora israelense de gastronomia.

Sentados do lado de fora de um café em Tel Aviv, ao sol, no início deste ano, os irmãos disseram que sua liberdade não parecia completa porque o corpo do último refém, o sargento-mor Ran Gvili, ainda estava em Gaza.

Gvili, integrante de uma unidade de elite de contraterrorismo da polícia, correu para o combate no 7 de Outubro. Ficou gravemente ferido e foi levado à força para Gaza.

Gali cumpriu o serviço militar em uma unidade de combate de infantaria, e Ziv, no corpo blindado. Eles disseram que não suportariam deixar um soldado morto ou ferido no campo de batalha. “Ele foi lutar por nós”, disse Gali.

Menos de duas semanas depois, Israel recuperou os restos mortais de Gvili. Para muitos israelenses, e para os irmãos, foi só então que a saga dos reféns terminou.

O sequestro

Gali e Ziv disseram ter crescido como parte da chamada geração Qassam, referência aos rudimentares foguetes Qassam que grupos militantes disparavam de Gaza contra Israel. Em Kfar Aza, os alertas de emergência lhes davam no máximo 15 segundos para se proteger. “Desde pequenos”, disse Gali, “corríamos para os abrigos.”

Eles nunca haviam imaginado um ataque da dimensão do ocorrido no 7 de Outubro. Já adultos, haviam se estabelecido em uma vida relativamente tranquila e confortável, trabalhando como técnicos em uma empresa de produção de som e iluminação sediada no kibutz.

Quando o ataque começou e o som dos tiros se aproximou, Damari teve medo de ficar sozinha, então Gali correu até a casa dela. Homens armados invadiram o quarto, mataram a cadela de Damari, Choocha, e atiraram nela, ferindo-a.

Combatentes atearam fogo à casa de Ziv nas proximidades, onde ele havia se refugiado em um cômodo protegido. O ambiente logo se encheu de fumaça. A escolha, disse Ziv, era sufocar ou sair. “Eu saí.”

Homens armados obrigaram Damari e os irmãos a entrar em seu carro e os levaram para Gaza. Em meio ao caos do ataque e do sequestro, Ziv, vendado e sentado no banco da frente, não fazia ideia de que Gali também estava no carro.

Gali disse que nunca esquecerá os gritos de comemoração que ouviu nas ruas de Gaza enquanto passavam. Parecia que todo mundo estava nas ruas. “Um milhão de pessoas”, observou Ziv.

No primeiro dia de cativeiro, Gali foi levado embora. Ziv e Damari ficaram juntos até o 40º dia, quando foram conduzidos para dentro de túneis e os sequestradores separaram os homens das mulheres.

Os irmãos se reencontraram pela primeira vez seis meses depois do início da provação, nas ruínas de uma casa bombardeada. Seus captores os filmaram enquanto eles gritavam de surpresa e se abraçavam para um vídeo de propaganda do Hamas que nunca foi divulgado. Eles passaram duas noites juntos, colocando a conversa em dia, e quase não dormiram, disse Gali.

Algumas semanas depois, passaram mais dias juntos em um túnel com outros reféns. Um terceiro encontro, filmado perto da costa de Gaza para outro vídeo de propaganda, durou apenas algumas horas.

A nova vida

A transição da experiência angustiante do cativeiro para a liberdade é um processo. O ano dos irmãos de volta a Israel foi radicalmente diferente de sua existência anterior, tranquila e rotineira. Cada um perdeu cerca de 20 kg em Gaza. Ziv passou por um extenso tratamento dentário e disse que não havia escovado os dentes por cerca de um ano durante o cativeiro.

Os irmãos viajaram bastante. Encontraram-se com o presidente Donald Trump nos Estados Unidos e conversaram com comunidades judaicas americanas, determinados, segundo eles, a “contar ao mundo” o que aconteceu.

Gali disse que ele e Ziv ficaram ainda mais próximos, com as experiências que compartilharam gravadas neles para sempre. “A vontade de estar juntos é mais forte”, disse Gali nesta semana.

Mesmo enquanto tentam se concentrar no futuro, Gali, Ziv e Emily ainda conversam sobre “as lembranças e os traumas” do que aconteceu com eles, disse ele.

Os irmãos voltaram recentemente de uma viagem à Tailândia e, depois de visitarem os túmulos de amigos no fim de semana, partiram para outra curta viagem ao exterior. Eles queriam ficar longe das imagens e dos sons das homenagens do 7 de Outubro, as primeiras desde que retornaram de Gaza, disse Gali.

No dia da libertação, eles pediram ao piloto do helicóptero que os levava ao hospital que sobrevoasse o estádio Bloomfield, casa do Maccabi Tel Aviv, seu amado clube de futebol. Eles compensam o tempo perdido assistindo a muitas partidas e jogando futebol, além de permanecerem próximos da família, disse Ziv.

Os irmãos comemoraram o aniversário de 29 anos no mês passado com uma animada festa dançante. Centenas de parentes e amigos, incluindo alguns reféns libertados, foram comemorar com eles em uma casa noturna de Tel Aviv.

O futuro, porém, será para sempre marcado por lembranças dolorosas. “O tempo em cativeiro sempre fará parte de mim, para o bem e para o mal”, disse Gali. “Mas estamos vivos. Não damos nada como garantido.”



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