Muitas perguntas poderiam ser feitas a Beth de Araújo, diretora independente americana do potente “Josephine”, a história de uma menina de oito anos que testemunha um crime sexual. Em Berlim, no entanto, ter “metade da família brasileira”, como declarou em entrevista, fez a realizadora ser questionada sobre o cinema do país natal de seu pai.
“Acompanho os diretores brasileiros, assisto a todos os filmes”, disse Araújo, depois de arriscar um “oi, tudo bem?” que poucos entenderam na sala de imprensa da Berlinale, na sexta. Dias antes, curiosamente, ela passava quase despercebida na recepção organizada pela embaixada brasileira na capital alemã para Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto”, que concorre ao Oscar neste ano em quatro categorias.
O salão estava cheio de brasileiros ligados à indústria de cinema, reflexo de quase uma dezena de inscrições do país nas mostras paralelas do Festival de Berlim. “Feito Pipa”, de Allan Deberton, ganhou o Urso de Cristal da mostra Generation Kplus e também o prêmio do júri internacional da mostra paralela.
O longa acompanha a vida de Gugu, um menino de 12 anos, vivido por Yuri Gomes, que mora com a avó ao lado de uma barragem e tem uma relação difícil com o pai, papel de Lázaro Ramos. “Ver nossas histórias alcançando o mundo e sendo celebradas internacionalmente mostra a potência criativa do nosso país”, disse Deberton.
“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, primeiro longa de Janaína Marques, foi eleito pelos leitores do jornal berlinense Tagesspiegel, parceiro de mídia da Berlinale, como destaque da seção Fórum. “É muito emocionante ver um filme tão íntimo se conectar com o público em um festival tão especial como o de Berlim”, disse Marques, em nota.
Também tiveram sessões concorridas “Nosso Segredo”, de Grace Passô, “Isabel”, de Gabe Klinger, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, documentário de Eliza Capai sobre o impacto do Bolsa Família sobre meninas de uma cidade do interior do Piauí, e “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, com a escritora Conceição Evaristo como uma das protagonistas.
“Fazer um filme são tantas etapas e tanto tempo. O dia que você vê outras pessoas assistindo é uma loucura”, declarou Passô sobre este que é seu primeiro longa na direção, adaptando as primeiras peças que escreveu. “Esse sistema tão industrial do cinema difere muito do teatro. Sobretudo essa relação com o mercado.”
“Nosso Segredo” versa sobre o luto em uma família negra em Belo Horizonte. “São figuras quase arquetípicas de uma família com muitos filhos, com muitos irmãos no Brasil”, afirmou a diretora. “A ideia de um filho mais velho que, na ausência do pai, acaba ocupando o espaço dele na família. O matriarcado, onde a mãe é tão importante e central.”
“Não é comum a gente ver tantos rostos retintos em uma tela de cinema, apesar do Brasil ser o Brasil”, afirmou, rindo, a atriz Ju Colombo, que interpreta a personagem da mãe. “Mas é universal o que está sendo mostrado ali.”
Um Brasil bem diferente é mostrado em “Isabel”. A cineasta Marina Person, que foi chamada para contribuir com o roteiro sobre a história de uma sommelier de vinhos naturais, uma especialidade sua, acabou assumindo o papel-título. “Isabel”, na verdade, é um grande passeio pela São Paulo afetiva de Gabe Klinger.
“A cidade retratada no filme tem muito a ver com esse olhar de uma pessoa que ficou fora e volta para o lugar de origem, mas que, de certa forma, também pertence a quase um passado”, afirmou Person, sobre o longo tempo que o diretor viveu expatriado e longe de uma São Paulo que está sumindo: casas de vila, ruas de paralelepípedo, vizinhos.
Klinger usou como locação sua própria casa, no bairro da Aclimação, zona central da cidade, com um tom propositalmente artesanal, inclusive na filmagem, em 16 mm. Regiões do centro paulistano e de Pinheiros também aparecem bastante. Ter a capital paulista como protagonista também se relaciona com “São Paulo Sociedade Anônima”, filme seminal de Luiz Sergio Person, pai de Marina. A obra de 1965, restaurada pela Martin Scorsese Foundation, foi relançada no ano passado. “Marina já é parte da história do cinema brasileiro”, afirma Klinger.
“E isso não só pela conexão que ela tem com o cinema do pai e da mãe [Regina Jehá], que também é uma cineasta incrível”, disse Gabe Klinger. Marina também é realizadora de “Califórnia”, de 2015, estrelado pelo ator Caio Horowicz, também no elenco de “Isabel”.
“É um momento muito profícuo do cinema brasileiro, tenho muito orgulho de também estar aqui em Berlim com tantos filmes maravilhosos. Sou muito fã da Grace, sou muito fã do André, são referências pra mim”, disse Horowicz.
Ao seu lado, Marina Person lembrou que “a identidade de um país é feita da sua produção cultural”. “A gente vê o cinema trazendo nossa língua, nossa música, nossos atores, atrizes, diretores, roteiristas. É tão incrível isso e é tão poderoso. Eu gostaria muito que a gente voltasse a ter uma produção realmente consistente.”
Mas a Berlinale, com produções tão variadas, e o país no Oscar pelo segundo ano consecutivo, não são sinais de retomada? “Não voltou ainda. O Fundo [Setorial do Audiovisual] precisa voltar a funcionar como antes de 2016, para que a gente possa ter novos ‘Ainda Estou Aqui’, novos ‘O Agente Secreto’. Para ser justo, esses filmes só existem porque foram 20 anos de consistência e formação de profissionais”, afirmou Person, usando como exemplos Adolpho Veloso, que concorre ao Oscar de fotografia por “Sonhos de Trem” neste ano, e o diretor de arte Thales Junqueira.
Em Berlim, o trabalho de Veloso foi notado pela crítica internacional em “Queen at Sea”, filme de Lance Hammer que levou o Urso de Prata como prêmio do júri.
“A equipe de ‘O Agente Secreto’ foi formada nos anos em que a Ancine estava funcionando bem, naquele ciclo virtuoso que culminou com ‘Bacurau’, ‘A Vida Invisível’”, disse Person, citando filmes de Mendonça Filho e Karim Aïnouz.
Dias antes, o diretor de “Rosebush Pruning”, que disputou a competição oficial desta Berlinale, também defendeu o financiamento público para o cinema nacional. “Amigos brincam comigo que filmes brasileiros começam com aquele monte de logotipos, e eu respondo ‘é isso mesmo’. Só quem vem de um país onde o cinema não existe sem financiamento público sabe o que é isso.”


