Na falta de notícias políticas que não sejam caso de polícia, o lançamento de Ronaldo Caiado a presidente pelo PSD teve alguma atenção do público, pelo menos de quem se ocupa um pouco de política. Foi bem pouco mesmo, dizem aqueles que medem interesses populares nas redes.
Mas qual papel Caiado pode ter em 2026? O governador de Goiás tem uns 4% nas pesquisas. Pode ser candidato a descer a 1% ou a fazer figuração maior —isso quando o povo prestar atenção à eleição, bem depois da metade do ano. Sua campanha terá de lidar com situações incontornáveis: 1) O grosso dos votos que pode virar estão na direita e na extrema direita; 2) Não terá apoio da maioria folgada de seu partido; 3) Para aliviar tais limitações, Caiado teria de se tornar uma estrela da política digital, empurrado por militância experiente e conectada com humores e odores desse ambiente —não deve acontecer, né.
Caiado já esteve na vanguarda, por assim dizer, de modo sarcástico. Candidato a presidente em 1989, montado em um cavalo branco, era da direita braba quando isso não era modinha —o contrário. O que dirá ao público que quer novidades? Teria o que dizer àqueles que prefeririam não ter de votar em Luiz Inácio Lula da Silva ou em Flávio Bolsonaro (PL)?
Em resumo, Caiado não terá chance de crescer além da candidatura nanica se não bater com força em Bolsonaro filho —é hipótese restante, não uma previsão. Como conciliar esse imperativo com a tentativa de agradar a bolsonaristas, dizendo que, se eleito, vai anistiar Jair Bolsonaro e o resto do bando golpista? O eleitor “nem-nem”, nem Lula nem Bolsonaro filho, aceitará a camaradagem golpista de Caiado?
A esta altura de ano de eleição, os eleitores não costumam estar pensando muito no assunto. Têm mais o que fazer da vida, não sabem muito bem quem são os pré-candidatos mais novos, não os viram em vídeos virais, menos ainda na TV; não receberam torrentes de mensagens pelo celular. Pode ser que mudem de ideia quando virem uma cara ou jeito ou show desconhecidos.
Isto posto, a julgar pelas pesquisas de março, ao menos um quarto do eleitorado se diz lulista convicto, ou algo assim, um quarto se diz bolsonarista também convicto. Embora o eleitor não esteja sob cabresto, é improvável que Caiado consiga virar muitos votos lulistas convictos ou mesmo conquistar eleitores “Simone Tebet” de 2022. Por falar nisso, não haverá uma candidatura tal qual a da ex-ministra do Planejamento de Lula 3. Lula 4 vai de Geraldo Alckmin de vice, pois não terá aliados além dos seus companheiros de viagem de sempre, como era previsto, até porque esnobou o centro. Do outro lado, haverá direita braba, direita dura e antissistema, como a do partido Missão, e extrema direita. O resto é “nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas”, para citar o poeta Haroldo de Campos (1929-2003), coitado de ser trazido a esta conversa.
Caiado não terá apoio de seu partido no Nordeste, afora no Rio Grande do Norte, nem no Pará, no Amazonas, no Mato Grosso ou no Rio de Janeiro. Em Minas Gerais há confusão, mas de lá não sairá grande coisa para Caiado, assim como no Rio Grande do Sul do preterido e magoado Eduardo Leite. Caiado tem Goiás e Paraná e, olhe lá, São Paulo.
Se não quiser ser figurante, assistente de palco ou escada do show de Bolsonaro filho, Caiado teria de bater pesado em Flávio e refrescar a memória sobre o candidato de milícias. Vai?
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