Como foi a última vez que humanos estiveram na Lua - 25/01/2026 - Ciência

Como foi a última vez que humanos estiveram na Lua – 25/01/2026 – Ciência

Quase todo mundo que era vivo na época se lembra daquela noite de julho de 1969 em que Neil Armstrong, visível em uma imagem chiada em preto e branco, descia da escada do módulo lunar e dava seu “pequeno passo”, com a primeira caminhada humana sobre a superfície da Lua.

Passadas décadas do feito extraordinário da Apollo 11, há os que acreditam e há os que duvidam, mas, dentre todos, os menos numerosos são os que conhecem os detalhes do longo caminho até aquela primeira alunissagem tripulada.

Também pouco lembrado é o fato de que ela acabou seguida por outras cinco, em missões que se estenderam até dezembro de 1972. Por um breve período de quatro anos no século 20, foi algo quase corriqueiro ter astronautas na Lua.

A história começa com a corrida espacial. Os soviéticos (hoje Rússia) lançam o Sputnik, primeiro satélite artificial, e a Laika, primeiro animal no espaço, em 1957, e dobram a aposta com o voo do primeiro homem ao espaço, com Iuri Gagárin, em 1961. Em inferioridade, os americanos decidem reagir propondo uma meta tão difícil e ousada para que, mesmo saindo atrás, pudessem chegar à frente dos russos.

Daí o famoso discurso do presidente John F. Kennedy, feito pouco depois do voo de Gagarin, exortando os Estados Unidos a levarem astronautas à Lua e os trazerem de volta em segurança até o final daquela década.

MISSÕES PRECURSORAS

Começa então na recém-fundada Nasa, agência espacial civil criada justamente para vencer os soviéticos na corrida espacial, o planejamento para concluir a missão. Antes do projeto Apollo, os engenheiros desenvolveram dois programas de ínterim: Mercury e Gemini.

As missões Mercury, conduzidas entre 1961 e 1963, tinham por objetivo demonstrar a capacidade americana de lançar humanos ao espaço e provar que eles poderiam não só sobreviver, mas trabalhar de forma eficiente, num ambiente de microgravidade.

As missões Gemini, realizadas entre 1965 e 1966 e assim batizadas porque a nova cápsula tinha capacidade para dois tripulantes, demonstrariam manobras e procedimentos essenciais para futuras viagens lunares, como aproximação, acoplagem e atividades extraveiculares (as chamadas caminhadas espaciais).

Somente depois que todos esses objetivos foram cumpridos que a Nasa iniciou o projeto Apollo, que começou de forma catastrófica, com um teste em solo que gerou um incêndio e matou três astronautas antes mesmo que qualquer voo fosse realizado.

A CORRIDA

Na União Soviética, o ritmo era similar; o programa espacial deles também havia desenvolvido as cápsulas Vostok e Voskhod (batendo os americanos com a primeira caminhada espacial, mas não com a primeira acoplagem) e iniciava em 1967 os testes com sua espaçonave que serviria (também) a missões lunares, a Soyuz. O primeiro voo, contudo, também terminou em tragédia, com um cosmonauta morrendo no retorno à Terra.

A corrida em si acabou decidida não pelas espaçonaves, mas pelos foguetes. Enquanto os EUA tiveram sucesso em construir o potente Saturn V, os russos tiveram problemas com seu equivalente ligeiramente menos capaz, o N1. Os americanos surfaram na competência do engenheiro espacial Wernher von Braun (ex-nazista trazido da Alemanha após a Segunda Guerra), enquanto os soviéticos tiveram uma fatalidade, com a morte de seu projetista-chefe, Sergei Korolev, após uma cirurgia malfadada. Resultado: os soviéticos acabaram não tendo chance de bater os americanos na corrida.

Mas isso não estava claro do outro lado da cortina de ferro. A Nasa temia chegar em segundo lugar mais uma vez, o que levou a decisões ousadas.

Após o lançamento bem-sucedido da primeira missão Apollo tripulada, a de número 7, em outubro de 1968, com o teste inaugural da cápsula no espaço, por causa de um atraso na fabricação do módulo lunar, a agência decidiu mudar a ordem das missões seguintes e realizar a Apollo 8 com uma viagem até a órbita da Lua, só com a cápsula, sem o módulo lunar.

Aconteceu em dezembro de 1968 e foi de ranger os dentes: após uma inserção em órbita da Lua, se por um acaso o motor do módulo de serviço não funcionasse, os astronautas morreriam por lá.

A pressa era justificada não pela confiança, mas pela corrida.

Em setembro de 1968, os soviéticos haviam lançado a cápsula Zond 5, numa viagem circunlunar. Sem orbitar a Lua, ela apenas contornaria o satélite e retornaria à Terra livremente, pela força da gravidade (como logo fará a Artemis 2). A bordo, havia duas tartarugas, plantas e ovos de moscas-das-fruta. Todas retornaram sãs e salvas.

Hoje sabemos que o plano original era ter cosmonautas a bordo, mas falhas em testes anteriores fizeram os soviéticos recuarem, com medo do impacto negativo que teria um desfecho adverso. Mas o sucesso da Zond 5 tornava iminente um voo tripulado soviético ao redor da Lua. Daí a antecipação da Apollo 8. Com ela, os americanos se tornaram os primeiros a orbitar a Lua com tripulação, inscrevendo os nomes de Frank Borman, Jim Lovell e William Anders nos anais do voo espacial.

A resposta soviética foi… fingir que nunca houve corrida. Com a missão orbital americana, seria vexame fazer só um voo circunlunar. E, para dobrar a aposta e vencer na alunissagem tripulada, eles dependiam do N1, que acabaria falhando em todos os testes. Como todos os planos eram secretos e só vinham a público depois de voar, a União Soviética simplesmente declarou que nunca planejou levar cosmonautas à Lua. Documentos hoje demonstram o contrário.

A ERA APOLLO

Após a Apollo 8, a Nasa entraria num ritmo furioso de missões lunares. Afinal, o prazo dado por Kennedy em 1961 –até o final da década– estava prestes a se esgotar. A Apollo 9, realizada em março de 1969, foi a primeira missão a testar o módulo lunar, mas limitou-se à órbita terrestre. A Apollo 10 faria tudo, menos a própria alunissagem. Conduzida em maio como um ensaio geral, realizou todas as manobras necessárias ao pouso, levando o módulo lunar a poucos quilômetros da superfície, antes de um retorno para acoplagem com o módulo de comando e a partida de volta à Terra.

Finalmente, em 16 de julho de 1969, partiria a Apollo 11, responsável pelo primeiro pouso lunar tripulado da história.

Após a alunissagem, no dia 20, Neil Armstrong e Buzz Aldrin tentariam ao menos tirar um cochilo, preparando-se para a atividade extraveicular, que ocorreria na madrugada do 21.

Eles passaram apenas cerca de duas horas e meia na superfície, instalando experimentos e colhendo amostras, antes de retornarem ao módulo lunar Eagle para a decolagem e reencontro com o módulo de comando Columbia, em órbita lunar.

A chegada se deu no dia 24, e o trio (Michael Collins permaneceu o tempo todo no Columbia) foi obrigado a enfrentar uma quarentena –naquela época não se sabia se poderiam ter voltado com germes perigosos da Lua.

Cada nova missão lunar tentou agregar mais valor aos feitos da anterior. A Apollo 12 tinha por objetivo repetir a 11, mas com um pouso de precisão, descendo próximo ao local onde havia descido, dois anos antes, a sonda americana Surveyor 3. Pete Conrad pilotou o módulo lunar para pousar a apenas 136 metros dela. Os astronautas fizeram duas caminhadas, totalizando mais de sete horas explorando a superfície.

A Apollo 13, em abril de 1970, foi um banho de realidade para a Nasa.

Primeiro, pela pouca atenção que, ao menos de início, despertou no público. Ir à Lua era uma coisa tão 1969… As emissoras reduziram drasticamente a transmissão de eventos ao vivo, pela queda do interesse.

Ir à Lua de repente parecia fácil. Mas não era. E uma explosão de um tanque no caminho para a Lua mudaria isso. O módulo de comando foi seriamente avariado. A possibilidade de alunissagem se esvaiu, e à tripulação só restou um bocado de improviso e inventividade, usando o módulo lunar como bote salva-vidas, para um retorno à Terra após um voo livre ao redor da Lua.

O resgate dos astronautas se tornou um dos maiores triunfos da Nasa, mas lembrou que as missões lunares também poderiam ser um bomba-relógio, prestes a explodir.

Quase um ano se passou até que, após uma investigação da falha, a missão seguinte ganhasse a plataforma de lançamento. A Apollo 14, replicando os objetivos e o alvo da 13, de fevereiro de 1971, e os astronautas Alan Shepard (que já era o primeiro americano no espaço) e Edgar Mitchell realizaram duas caminhadas lunares, focadas em ciência.

De Apollo para Artemis

A partir da Apollo 15, a Nasa faria missões lunares mais extensas, com um módulo lunar um pouco maior e capaz de transportar mais suprimentos e combustível. Foi o que permitiu, por exemplo, levar o Lunar Roving Vehicle (LRV), o jipe dobrável elétrico que os astronautas usavam para excursões mais distantes do sítio de pouso. Foram quatro atividades extraveiculares (três pela superfície, uma só na escotilha superior) e mais de 18 horas na superfície, em uma estadia de 66 horas antes da decolagem.

A Apollo 16, de abril de 1972, repetiria o feito, com mais de 20 horas em caminhadas pelo solo, em meio a 71 horas “morando” no módulo pousado na superfície da Lua. Àquela altura, todos já sabiam que a próxima missão, Apollo 17, seria a última.

Em 1969, o presidente Richard Nixon já havia decidido que, vencida a corrida espacial, o programa deveria ser encerrado. Mais adiante, foi acordado que nem mesmo missões para as quais já havia equipamento fabricado, Apollo 18, 19 e 20, voariam. Isso levou a Nasa a rearranjar a tripulação da missão 17 para que ao menos um cientista tivesse a oportunidade de ir à Lua.

Foi assim que o astronauta e geólogo Harrison Schmitt conseguiu seu lugar na derradeira missão, que bateu um recorde de estadia na superfície (75 horas), com caminhadas lunares somando 22 horas.

As explicações para o cancelamento são cristalinas: o custo era elevadíssimo (o orçamento da Nasa chegou a comer 5% dos gastos do governo no auge do programa Apollo, versus o típico 0,5% que prevalecia antes e voltou a prevalecer depois), a vitória moral na corrida espacial estava consolidada (com os soviéticos negando terem participado dela) e os riscos envolvidos nesses voos inevitavelmente conduziriam a uma tragédia, cedo ou tarde.

Desde então, humanos não visitam mais o satélite natural –um hiato que já dura mais de cinco décadas.

Essa realidade começa a mudar neste ano, com a missão americana Artemis 2, que pretende contornar a Lua com quatro astronautas a bordo. Os EUA se veem mais uma vez numa corrida espacial, desta vez contra a China.

Mas agora há mais em jogo do que uma mera disputa de prestígio (a exploração de recursos naturais e o domínio do espaço cislunar), e a sustentabilidade dos programas é maior, com o avanço das tecnologias e o barateamento dos lançamentos espaciais.

A conferir se, em alguns anos, quando ir à Lua voltar a ser algo corriqueiro, o interesse em seguir adiante persistirá. Tudo indica que sim.



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