Empresas farmacêuticas estão apenas “arranhando a superfície” do enorme mercado potencial para medicamentos para perda de peso e deveriam focar mais em ampliar o acesso, segundo o chefe da empresa por trás das canetas Wegovy e Ozempic.
Mike Doustdar, presidente-executivo da Novo Nordisk, disse ao Financial Times em entrevista: “É preciso expandir o mercado, especialmente se você trabalha em um negócio como o nosso. Nos EUA, há 110 milhões de pessoas com obesidade”.
Ele acrescentou que a Novo Nordisk, sua principal rival Eli Lilly e as farmácias de manipulação dos EUA que produzem medicamentos similares para obesidade, juntas, “estão alcançando não mais do que 10% a 15% dessa população neste momento. Quase não se fala sobre o restante”.
Doustdar assumiu como presidente-executivo da Novo Nordisk em agosto do ano passado para tentar melhorar a situação da empresa dinamarquesa após um período difícil, quando perdeu a liderança de mercado para a Lilly, dona do Monjauro, e teve alguns resultados decepcionantes em ensaios clínicos.
A empresa espera que o lançamento de seu medicamento para perda de peso Wegovy em forma de comprimido este ano ajude a recuperar terreno, embora a Lilly também tenha acabado de obter aprovação regulatória nos EUA para o comprimido para perda de peso Foundayo.
Doustdar disse que a necessidade de expandir o acesso foi uma das razões pelas quais a Novo Nordisk concordou em reduzir os preços dos medicamentos vendidos via TrumpRx, o site de prescrições do presidente dos EUA. A Lilly e várias outras grandes empresas farmacêuticas fecharam acordos semelhantes.
A Novo Nordisk também está planejando cortes acentuados nos preços de atacado nos EUA para o Wegovy e o Ozempic, que é vendido como tratamento para diabetes. Os preços cairão 50% e 35%, respectivamente, a partir de janeiro.
“O acordo com o governo Trump, embora funcione bem para o governo dos EUA, também funciona muito bem para nós”, disse ele, porque amplia a base de clientes com preços mais baixos.
Um grande desafio para a Novo Nordisk é a expiração de patentes. A semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, perdeu recentemente a proteção de patente no Brasil, Canadá, Índia e China, abrindo caminho para medicamentos “genéricos” mais baratos e sem marca. Pelo menos 10 empresas na Índia já lançaram genéricos.
Folha Mercado
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Emil Larsen, vice-presidente executivo de operações internacionais da Novo Nordisk, sugeriu que cortes de preços podem fazer parte de sua estratégia para competir em um mercado sensível a preços como a Índia.
A Novo Nordisk já reduziu o preço das injeções de Wegovy na Índia em até 37% no ano passado, com a dose mais alta de 2,4 mg sendo vendida por cerca de US$ 187 (R$ 965) por mês, em comparação com cerca de US$ 250 (R$ 1.290) por mês no Reino Unido.
Larsen, que dirige todas as operações no exterior excluindo os EUA, disse ao FT em entrevista: “Já existe um mercado lotado na Índia e ficará ainda mais lotado. Nossa ambição é permanecer competitivos nos patamares de preços que se estabelecerem nos próximos meses”.
Ele também disse que, para competir com os genéricos, “o número um da Novo Nordisk é ressaltar a qualidade de nossos produtos”.
“Há um elemento de confiança e reconhecimento de marca com o qual trabalhamos.”Ele destacou que, embora os produtos de insulina humana da empresa tenham perdido a proteção de patente há décadas, a Novo Nordisk continua líder de mercado por causa de sua marca, garantia de qualidade e produção em larga escala.
Para compensar alguns dos efeitos das expirações de patentes, a Novo Nordisk firmou parcerias. No Brasil, fez parceria com a Eurofarma para lançar o Wegovy sob a marca Poviztra para perda de peso e Extensior para diabetes.
Na Índia, tem um acordo para lançar o Poviztra com a Emcure Pharma. Para o Extensior, está trabalhando com a Abbott. Tanto a Emcure quanto a Abbott têm extensas redes de distribuição em todo o país mais populoso do mundo.
Larsen disse que um desafio maior do que a concorrência dos genéricos é o tamanho limitado do mercado de medicamentos para perda de peso em muitas partes do mundo.
“O maior problema que temos do ponto de vista de oportunidade em um mercado como a Índia ainda não é a concorrência, é que quase não existe mercado. Há mais pacientes sendo tratados na Dinamarca com produtos da Novo Nordisk do que no país mais populoso do mundo.”
A confiança em marcas estabelecidas será fundamental para expandir o acesso, acrescentou.
“A força de uma marca de qualidade com um histórico de entregar bons resultados a um preço razoável vai muito longe em mercados emergentes.”


