Georgette Fadel revisita 'Gota D'Água' após 20 anos - 27/03/2026 - Teatro

Georgette Fadel revisita ‘Gota D’Água’ após 20 anos – 27/03/2026 – Teatro

São Paulo

Quando viveu a Joana de “Gota D’Água” em 2006, Georgette Fadel tinha 31 anos. Não era uma tarefa qualquer, já que a personagem evocava a lendária Bibi Ferreira (1922-2019), que estrelou a primeira montagem da peça, em 1975. “Cada espetáculo faço em homenagem aos que fizeram antes, para acrescentar uma nova visão. O que trago para Joana é minha fragilidade, são minhas questões”, disse à Folha na época.

Vinte anos depois, é o espectro de sua juventude que ela encara, ao retornar à peça com Cristiano Tomiossi, da Cia. Coisas Nossas, de volta ao personagem Jasão. Eles assinam juntos uma nova montagem, em cartaz no Teatro Anchieta.

Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi posam para fotos de ‘Gota D’Água’


Barbara Campos/Divulgação Sesc

“Eu era muito excessiva nos gestos, segurava muito a cena quando via que o público estava gostando. Agora, estou menos vaidosa e mais relacionada com o texto”, afirma a atriz.

“Gota D’Água”, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes, revisita “Medeia”, de Eurípedes, deslocando a trama para um complexo habitacional carioca. Na trama, Jasão, marido mais jovem de Joana, a abandona para se casar com Alma, filha do rico Creonte.

Ao contrário do que acontece na tragédia grega, a releitura não termina em catarse. O texto de Pontes e Buarque só permite a vingança da mulher humilhada por meio de seu sacrifício, a equiparando às tantas mulheres vitimadas no Brasil o tempo todo. Fadel não é insensível a esta questão e refletiu sobre o impacto que a peça teria com o público hoje, especialmente o feminino. Decidiu manter o texto intocado.

“Eu entendo que certos preconceitos e fetiches em relação à violência não podem mais existir no teatro. Mas a gente tem que discutir esses vícios e mazelas. Se não, a gente vai ter só Madre Teresa de Calcutá em cena”, afirma.

Para ela, faz parte da função dos atores dar a cara a tapa. “A gente tem uma visão de que o teatro é sagrado e não se pode errar. Tem que entrar em cena com o discurso correto, para não ser apedrejado. Acho que é função do ator receber umas pedras.”

A versão de 2006 foi preparada em menos de um mês, disparate para os padrões de então. Ali, a proposta era uma encenação crua, centrada nas atuações. “A nossa montagem não é a mais linda do mundo, só sobramos nós naquele fim de mundo”.

Imagem de divulgação da montagem de 2006 de ‘Gota D’Água’


Divulgação Sesc

Heron Coelho assinou a direção da primeira montagem, mas Fadel e Tomiossi contam que ele ficava mais responsável pela parte musical do espetáculo, enquanto os dois davam as cartas do que acontecia no palco.

“Desde o começo a peça foi concebida como uma peça de atores e atrizes”, afirma Fadel. “Não tem uma mão severa da direção, como quando eu trabalho com o Felipe Hirsch, por exemplo. No ‘Gota D’Água’, a assinatura é justamente uma vontade de não ter assinatura nenhuma, a não ser coletiva.”

O formato de arena de 2006, com o público disperso ao redor dos atores, foi adaptado ao palco italiano do Teatro Anchieta, mais tradicional. Algumas cadeiras nas laterais da cena acenam para a configuração antiga, exigindo malabarismos dos atores, que precisam misturar as duas experiências diferentes. Outra mudança está no coro de músicos, que aumentou.

Para Tomiossi, a nova montagem chega aos palcos nesta sexta (27) mais retocada. “Agora, estamos tendo a chance de desenhar um pouco melhor cada personagem, fazer um trabalho mais aprofundado”, afirma.

Gota D’Água

Sesc Consolação – r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, região central. Qui., às 15h, sex. e sáb., às 20h, e dom., às 18h. Até 3/5. Ing.: R$ 70, em sesc.org.br



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