Do alto do carro alegórico dos Cavalheiros de Bagdá, surgia a figura de um homem alto e corpulento vestido com um colete metálico, turbante na cabeça e sapatos de bico fino. Com uma baqueta, ele fazia soar um gongo e usava pólvora para criar um clarão, para espanto dos foliões nos cordões e batucadas.
Carnavalesco que ajudou a moldar a festa em Salvador, Nelson Maleiro foi um dos primeiros protagonistas negros do Carnaval. Multifacetado, foi artesão, cenógrafo, músico e agitador cultural, ajudando a desenhar a estética da folia e a base percussiva do Carnaval entre as décadas de 1950 e 1980.
Deixaria sua marca nas alegorias dos afoxés e na influência sobre as gerações seguintes, inspirando Carlinhos Brown a criar o grupo de percussão Zárabes. Seu nome batiza desde 2011 a passarela do circuito Osmar, no Campo Grande.
“Salvador tinha um Carnaval mais cênico, com fantasias e carros alegóricos. Existia disputa entre os clubes, que levavam foliões para as ruas, e entre os blocos, que desfilavam principalmente nos bairros. É nisso que Nelson Maleiro se insere, ele foi um grande criador”, afirma o historiador Jaime Nascimento.
Nelson Cruz nasceu em 1909 em Saubara, na época um distrito da cidade de Santo Amaro, e veio para Salvador ainda pequeno. Passou a trabalhar com artesão e logo se destacou produzindo malas – daí Nelson Maleiro, apelido que se transformaria em nome artístico.
Com destreza no manejo do couro, passou a construir instrumentos de percussão como atabaques, pandeiros e tamborins. Abriu uma oficina na Barroquinha, que se transformaria em ponto de encontro de músicos.
Pela oficina de Maleiro passaram nomes como Dorival Caymmi, Bell Marques e Carlinhos Brown, que buscavam instrumentos feitos sob medida. Raul Seixas, por exemplo, encomendou uma bateria em estilo americano com efeitos de luz que piscavam ao toque do pedal.
Mas foi o Carnaval que fez de Maleiro um personagem central. Nos anos 1950, fez parte dos Mercadores de Bagdá, bloco de inspiração orientalista formado por foliões negros vindos dos bairros populares de Salvador. Em 1959, abriu uma dissidência e fundou os Cavalheiros de Bagdá, onde consolidou o personagem do Gigante de Bagdá, com seu gongo dourado.
No bloco, Maleiro era músico, além do responsável por desenvolver os carros alegóricos. Em 1965, apresentou um dragão que expelia fogo pela boca. Nos anos seguintes, levou para as ruas no Carnaval uma baleia que lançava água sobre o público e um gorila com movimentos articulados.
“Estamos falando de uma época em que a tecnologia não era tão avançada. Isso mostra a força da engenhosidade desse homem que fazia esses carros alegóricos recolhendo papelões, caixas nas lojas”, afirma o pesquisador Leonardo Mendes, autor do livro “Nelson Maleiro, o gigante das mil e uma criações”.
Com o fim dos Mercadores de Bagdá, Maleiro produziu alegorias para o bloco Os Internacionais, um dos mais tradicionais do Carnaval baiano. Se tornou uma espécie de faz-tudo no bloco: tocava sete instrumentos e concebeu carros como o Pandeiro Cigano e A Pirâmide de Egito
Colaborou ainda com os Filhos de Gandhy, criando as versões iniciais do elefante que se tornaria um dos principais símbolos do afoxé.
Também era presença certa nas demais festas populares. Na Lavagem do Bonfim, desfilava em cima de uma bicicleta de seis lugares, enquanto na Festa de Iemanjá era um dos responsáveis pelo presente para a orixá, levado pelos pescadores ao mar.
A visibilidade no Carnaval o projetou para a televisão. Na TV Itapoan, integrou o júri do programa Escada do Sucesso, no qual surgia caracterizado como gigante para gongar calouros que desafinavam. O quadro marcou época e fez de Maleiro um dos primeiros negros com destaque na televisão baiana.
O último desfile no Carnaval aconteceu em 1979 –ele seria acometido por um AVC no ano seguinte e morreria em 1982. Sua morte teve pouca repercussão, mas ele voltaria a ser celebrado partir de 1996, com a criação da Associação de Amigos de Nelson Maleiro, liderada por Ivete Lima e Ivan Lima.
Desde então, o nome do artista foi dado a uma rua na Liberdade, a uma escola no Cabula e à passarela do Carnaval no Campo Grande. Seu dia de nascimento, 20 de janeiro, foi transformado no Dia Municipal do Carnavalesco.
“Ele desenhava fantasias, alegorias, construía os instrumentos para ele e para os outros blocos. Foi um negro precursor no Carnaval”, afirma Ivan Lima, memorialista e o vice-presidente da Associação Amigos de Nelson Maleiro.
Lima afirma que protagonistas negros do carnaval precisam ser mais valorizados, sobretudo em uma Salvador que se posiciona sob a marca de “capital afro”. E defende que Nelson Maleiro seja escolhido como tema do Carnaval.
Para o pesquisador Leonardo Mendes, a biografia de Maleiro se confunde com a própria formação do Carnaval de Salvador no século 20: “Se Moraes Moreira cantava ‘Eu sou um Carnaval em cada esquina’, com certeza em uma dessas esquinas estará Nelson Maleiro.”


