Leonardo Sakamoto

Perguntas que Caiado terá que fazer para provar não ser o Padre Kelmon

Ninguém nega que sua candidatura será de direita, mas isso não significa apagar os pecados do adversário no mesmo campo. Principalmente em um panorama de ultrapolarização.Alguns indicadores vão mostrar se o governador vai propor uma pauta baseada nas demandas do agronegócio, do conservadorismo e da Faria Lima (por mais equivocadas e perniciosas aos trabalhadores que, na minha opinião, muitas delas sejam, a defesa delas faz parte da democracia) ou se irá operar apenas como ajudante.Por exemplo, entre uma e outra cacetada em Lula, o que é esperado, Caiado terá que questionar o desvio de grana dos gabinetes do então deputado federal Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, resgatar o faz-tudo Fabrício Queiroz e denúncias de lavagem de dinheiro usando chocolate, bem como tratar da aquisição de patrimônio, como a mansão de mais de R$ 6 milhões que o hoje senador comprou em Brasília. Ou ainda se Flávio usou a Agência Brasileira de Inteligência durante o mandato do pai para produzir relatórios com o objetivo de orientar a sua defesa no caso das “rachadinhas”.Isso só para citar casos pessoais, fora tudo o que ocorreu durante o governo passado. O próprio governador, que é médico, bateu de frente com o então presidente durante a pandemia por causa do negacionismo de Jair. Poderia questionar os mais de 700 mil mortos que estão na conta do clã Bolsonaro. Ou, mais recentemente, o prejuízo de empresas e empregos brasileiros causado pela ação do irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo. Para tentar impedir a condenação do pai, ele ajudou a convencer o governo Donald Trump a baixar o famigerado tarifaço de 50% contra a economia do país.A principal pergunta não é sobre quem Caiado atacará mais, mas quem ele terá coragem de enfrentar de verdade. Porque fazer oposição a Lula rende aplauso fácil em certos auditórios, difícil é encarar o próprio campo sem baixar a cabeça. Se escolher o conforto da claque, vira eco de Bolsonaro e pode se tornar ministro em caso de derrota do incumbente. Se escolher o risco do confronto honesto, pode até desagradar aliados, mas ganha densidade política.Entre ser linha auxiliar de Flávio Bolsonaro ou protagonista de si mesmo, não há meio-termo sustentável. E quem tenta equilibrar os dois lados acaba, quase sempre, escorregando para o papel do figurante que será lembrado sem saudades. Algo que o Padre Kelmon conhece bem.



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