Liguei a televisão. Mais um atropelamento com motorista alcoolizado. Me entristeci. Abri meu email. Um homem de 42 anos que perdeu o pai para o alcoolismo havia me escrito uma carta triste. Fiquei pensando naquela dor, tanto a das pessoas envolvidas no atropelamento quanto a do leitor que me mandou a carta. A carta era longa, sofrida. Mas o que fazer nesses casos?
Não tenho grandes conselhos a dar, apenas a minha própria experiência. É uma pena que nem todo mundo enxerga o alcoolismo como algo maléfico, ainda que a OMS já o tenha identificado como doença. Quem bebe em grandes quantidades nem sempre é necessariamente alcoólatra, mas com certeza tem uma relação profundamente problemática com a bebida.
Recentemente, no trabalho, recebi imagens de uma funcionária completamente alcoolizada. No meu tempo, as redes sociais eram muito pouco usadas, para a minha sorte. Já trabalhei bebendo, já dirigi alcoolizada, mas isso faz parte do passado. Não há nenhum registro dos meus estragos. Sorte? Não sei. Talvez as mensagens vistas nos dias seguintes tivessem me ajudado a enxergar, com mais clareza, os males que eu causava.
O álcool tem uma estranha capacidade de convencer quem bebe de que está tudo sob controle, mesmo quando tudo já saiu dos trilhos. Enquanto isso, quem está ao redor vai acumulando medo, vergonha, decepção e, muitas vezes, luto. O sofrimento raramente fica restrito à pessoa que bebe.
Hoje, quando vejo uma notícia como a do atropelamento ou leio a carta de um filho que perdeu o pai para a bebida, não consigo pensar apenas na tragédia do momento. Penso em todas as pequenas escolhas que vieram antes, nos pedidos de ajuda que talvez tenham sido ignorados, nas desculpas repetidas, nas promessas de que seria “só mais uma vez”.
Eu sei que existe saída porque encontrei a minha. Mas isso só foi possível quando deixei de minimizar o problema e passei a chamá-lo pelo nome. O alcoolismo não é um traço de personalidade, uma fase ou uma simples falta de força de vontade. É uma doença que destrói carreiras, famílias, relacionamentos e vidas.
Se este texto chegar a alguém que esteja vivendo algo parecido, seja como dependente ou como familiar, tomara que ele sirva como um lembrete: não espere que aconteça uma tragédia para reconhecer que existe um problema. Às vezes, o maior ato de coragem é pedir ajuda antes que a próxima notícia na televisão seja sobre alguém que poderia ter sido salvo.
Se arriscar a viver uma vida sóbria é encarar todos os acontecimentos de cabeça erguida. Não há anestésico melhor que o álcool, eu bem sei, mas há modos e modos de viver. A gente passa por adversidades que até ajudam a nos fortalecer.
Experimentar fustração, medo, falta de dinheiro é dureza. Mas superar sóbrio é mais legítimo. O AA me apoia em diversas situações —inclusive a me perdoar por tantos males causados pelas atrocidades que fiz. O tempo vai amenizando. Disso a gente pode ter certeza.
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