Minha vivência pelo rádio da música pop dos anos 80 só me permitia associar o nome Thomas Dolby à música “She Blinded me with Science”. Mas meu marido, que trabalhou por 30 anos no circuito profissional da música pop, é um admirador do artista, então quando Dolby anunciou um show em Nashville no Cannery Row, uma casa de show pequena e simpática, fui alegremente junto. Meu marido sabe que o que eu me recuso a ouvir é thrash metal, que me agride o cérebro; com todo o resto, eu sempre acho alguma coisa interessante para ficar analisando quando não gosto da música.
Eu não tinha a menor ideia do que esperar além de um músico que fazia música com sintetizadores, e que provavelmente ainda curtia a estética musical dos anos 1980 que, mais que só nostálgica, eu acho interessante e divertida. Mas aprendi no último ano a valorizar música feita com sintetizadores, desde quando meu marido, agora aposentado, resolveu se estender da bateria, em que é profissional, para os softwares que transformam toques em teclados, botões, almofadinhas e até tambores e pratos de bateria digital em sons. O homem, afinal, é fã de Frank Zappa, rei do synclavier.
Tenho visto e ouvido meu marido se expor à nova tecnologia –que, curiosamente, foi parte do que o fez abandonar a vida de shows, quando muito do equipamento e trabalho no palco, e às vezes toda a música, passou a acontecer com o toque de um único botão em um computador na coxia. Um sintetizador é esse software que transforma suas ações –toques, batuques etc– em sons à sua escolha. O ritmo e intensidade dos sons é ditado pelos seus movimentos, mas a frequência, o timbre, o envelope do som dependem das suas escolhas com o software. Um mundo inteiro de possibilidades se abre. Passar horas experimentando cada som sem criar nada é trivial.
O brinquedo não me atrai como tal porque meu negócio é o lado motor da coisa: a execução. Gosto de aprender a tirar sons de instrumentos, a limpar minhas ações para limpar o som, a organizar meus movimentos em melodias bonitas. Ao contrário, meu marido curte muito mais o resultado das suas ações –e, depois de aprender toda uma tecnologia e ferramenta nova, ele agora compõe suas músicas.
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Donde meu prazer de descobrir o que Dolby faz, sozinho no palco com um computador, um microfone sem fio, um teclado, um controlador de almofadinhas de tamanhos diferentes, e um miniteclado do tamanho de um iPad com o qual ele às vezes passeava pelo palco. Logo me veio à cabeça o primeiro one-man-band que eu vi na vida, o Bert do filme “Mary Poppins”, um crush da minha infância.
Bert controlava acordeon, prato, gaita e tambor. Dolby controla, na nossa frente no palco, tudo o que ele quiser. Claro, os sons são pré-programados para cada nova música, com botões, teclas e almofadinhas soando como instrumentos diferentes. Mas haja córtex cerebral para se lembrar do que está onde, do que ele toca quando, para executar o que ele compôs.
E, é claro, haja experiência. A dele é tanta que Dolby é, desde 2014, professor de música para novas mídias na Universidade Johns Hopkins. Pois o professor também deu aula no palco, usando seus neurônios primeiro para compor lindos mash-ups de música dos anos 80, depois executá-los só para nós na audiência, no one-man-show mais bonito que eu já vi.
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