Bruno Guimarães vai à Copa com vivência da Vila Isabel - 30/05/2026 - Esporte

Bruno Guimarães vai à Copa com vivência da Vila Isabel – 30/05/2026 – Esporte

“Para nos vencer, o alemão ou suíço teria de passar várias encarnações aqui. Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. Precisaria ser camelô no Largo da Carioca. Precisaria de toda uma vivência de boteco, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral”, escreveu Nelson Rodrigues, em célebre texto publicado na revista Fatos & Fotos, em junho de 1962, em festa pelo bicampeonato mundial do Brasil, no Chile.

Na luta pelo hexa, em 2026, na América do Norte, a seleção terá seu legítimo representante de Vila Isabel, com uma vivência que pode fazer diferença contra alemães, suíços e outros adversários. Orgulhoso de suas raízes no tradicional e boêmio bairro do Rio de Janeiro, Bruno Guimarães, 28, as carrega nos uniformes que veste no futebol europeu.

A camisa 39 que ele usa no Newcastle –e usou anteriormente no Lyon– é uma referência ao número do táxi de seu pai em uma frota da zona norte carioca. Quando o atual volante do Brasil vivia na rua Oito de Dezembro, na vizinhança de Noel Rosa, eram as corridas de Dick que bancavam a família.

Bruno gosta de narrar o momento em que chegou ao Athletico Paranaense, em 2017, aos 19 anos. Foi após algumas dispensas em clubes grandes do Rio de Janeiro, o início no Audax Rio e uma boa passagem no Osasco Audax, da região metropolitana de São Paulo.

Ele debateu com o pai a camisa que escolheria na nova equipe e mencionou a ideia de trajar a 97, por causa do ano de seu nascimento. “Que tal 39?”, retrucou Dick, segundo relato do jogador. “O 39 nos deu tudo o que temos, Bruno. Nossa casa, nossa comida, nossos móveis, suas chuteiras. Foi tudo por causa do táxi”.

O jovem, então, foi ao clube decidido a aceitar a recomendação, porém recebeu do roupeiro um kit já com as roupas numeradas. Para seu espanto, era o número do táxi. Ele telefonou para o pai, em uma ligação com choro dos dois lados da linha. “Eu disse: ‘Isso é um sinal, não se engane, aqui eu vou brilhar’.”

Quem indicou sua contratação pelo Athletico foi o técnico Fernando Diniz, que o havia dirigido no Osasco Audax. “Ele tem alma de jogador. Quando o problema aparece, ele sabe encarar. Ele tem alma de jogador grande”, afirmou o treinador, na ocasião.

Logo ficou claro que não eram palavras vazias. Peça-chave em triunfos relevantes da formação paranaense –a Copa Sul-Americana de 2018 e Copa do Brasil de 2019–, foi comprado pelo Lyon, manteve o nível alto na França e desembarcou no Newcastle como estrela no projeto de grandeza do clube inglês, comprado em 2021 pelo fundo soberano da Arábia Saudita.

A agremiação ainda não decolou como pretendia, mas alcançou seu primeiro título nacional de elite em 70 anos, a Copa da Liga Inglesa de 2024/25. Idolatrado pelos torcedores, o brasileiro foi raro destaque da equipe na última temporada.

Para mim, o 39 é mágico. O número 39 me deu tudo

Bruno chegou à seleção em 2020, pelas mãos de Tite, e não saiu mais. Presente na conquista do ouro olímpico com o time sub-23, nos Jogos de Tóquio –realizados em 2021, com um ano de atraso, por causa da pandemia de Covid-19–, esteve também na Copa do Mundo de 2022, como reserva.

No ciclo atual, ganhou a posição e manteve seu prestígio com diferentes treinadores, o que não mudou com Carlo Ancelotti. Já sob comando do italiano, balançou a rede na vitória por 3 a 0 sobre o Chile, pelas Eliminatórias do Mundial, em setembro do ano passado. O jogo foi no Maracanã, onde torceu várias vezes pelo Vasco, a menos de dois quilômetros de sua velha casa em Vila Isabel.

Com Ancelotti, Bruno Guimarães vê a oportunidade de unir o molejo da zona norte carioca à disciplina tática europeia. Por isso, malandramente, tratou de celebrar o 3 a 0 pelo três e também pelo zero. “É um treinador italiano, né? Tomar poucos gols é fundamental”, sorriu.

Na Copa do Mundo, para tristeza do jogador, a numeração vai de 1 a 26. Mas ele carregará o 39 na pele, tatuado na panturrilha direita.



Créditos

Comments

No comments yet. Why don’t you start the discussion?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *