Uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) aponta uma redução das remoções aéreas de pacientes da Terra Indígena Yanomami por malária e desnutrição, mas um aumento das ocorrências ligadas ao uso de armas de fogo, entre 2023 e 2025.
O território está sob emergência em saúde pública desde janeiro de 2023, primeiro mês do governo Lula (PT), em razão da explosão de casos de desnutrição grave e de doenças associadas à fome, como pneumonia, diarreia e infecções respiratórias, além da incidência sem controle da malária.
A crise sanitária é resultado da invasão de milhares de garimpeiros ao território durante o governo Jair Bolsonaro (PL).
Os dados de remoções analisados por auditores do TCU, fornecidos pelo Ministério da Saúde, indicam uma “melhoria no controle das emergências ligadas a doenças infecciosas e nutricionais, ao mesmo tempo que expõem o crescimento de problemas possivelmente relacionados à violência na terra yanomami”, cita o relatório.
O documento é um acompanhamento de medidas que já haviam sido determinadas em 2023 e será julgado no plenário do tribunal nesta quarta-feira (13). O processo é relatado pelo ministro Bruno Dantas. O volume fiscalizado chegou a R$ 529 milhões, valor gasto em saúde indígena em Roraima de 2023 a 2025 (até setembro).
Conforme o relatório técnico, 16 de 24 deliberações feitas pelo tribunal há três anos ainda não foram cumpridas pelo Ministério da Saúde.
As remoções aéreas são feitas quando casos mais graves demandam atendimento médico em Boa Vista, a capital de Roraima. Esses voos são frequentes, em razão da dimensão da crise de saúde, e podem demorar horas, a depender da localização das aldeias na terra yanomami, a maior do país.Os deslocamentos por malária em 2025 chegaram a 40 por mês, em média, conforme os dados reproduzidos na auditoria do TCU. No ano anterior, foram 109.
No caso de desnutrição, houve 10 remoções por mês, em média, em 2025, ante 12 em 2024 e 21 em 2023.
Os casos envolvendo armas de fogo, descritos como acidentes, chegaram a 80 em 2025 (entre janeiro e maio), uma média de 16 por mês. Em todo o ano de 2024, foram 90 remoções aéreas de indígenas, ou 7,5 por mês, em média. Em 2023, essa média foi de 4,1.
A reportagem questionou o Ministério da Saúde sobre os apontamentos da auditoria, mas não houve resposta até a publicação.
Falta de medicamentos e alcoolismo
O relatório aponta que existem estruturas precárias no atendimento aos indígenas no território, como o polo base de Homoxi, “considerado pela Sesai [Secretaria de Saúde Indígena] como reformado integralmente”.
Houve perdas de vacinas, por falhas em refrigeração, e ainda persiste uma escassez de medicamentos, conforme o TCU.
Esse problema dos medicamentos é ainda mais grave em unidades de saúde voltadas a outros povos indígenas em Roraima, atendidos por outro DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), segundo os auditores do TCU.
O relatório aponta o uso abusivo de álcool no território como um “fator agravante para a saúde e a organização social” das comunidades. “O consumo está associado ao aumento de casos de violência doméstica, conflitos entre os indígenas e ameaças às equipes de saúde.”
O contato com os garimpeiros, até existir uma redução expressiva das áreas invadidas, levou a uma introdução do álcool em aldeias, conforme a auditoria. Os registros sobre alcoolismo são subnotificados e não há tratamento adequado à questão, segundo o relatório.
Existe ainda falta de transparência em relação aos dados de saúde indígena no território, relacionados a morbidade e mortalidade, conforme o TCU.
O ministério divulgava dados semestrais, que permitiam comparações imprecisas sobre o que estava ocorrendo na terra yanomami desde o início da emergência em saúde pública.
Um boletim da pasta divulgado em abril afirma que houve 435 óbitos de yanomamis em 2023, 347 em 2024 e 356 em 2025. Houve redução de mortes por infecções respiratórias (16,7%, na comparação com 2023), por desnutrição (53,2%) e por malária (80,8%), segundo o boletim divulgado.
No começo do ano, um surto de coqueluche entre yanomamis obrigou o Ministério da Saúde a fazer uma ação de emergência no território. O caso envolveu envolveu bebês em sua maioria, coinfecções por vírus respiratórios e uma fragilidade na vacinação de crianças e gestantes.
Pelo menos 15 casos foram confirmados, entre 1º de janeiro e 22 de fevereiro. Em fevereiro, o Ministério da Saúde confirmou a ocorrência de três mortes de crianças yanomamis por coqueluche.


