Migrantes que nadaram ou saltaram cercas para entrar no exclave espanhol de Ceuta, no norte da África, começaram a fazer o trajeto de volta neste sábado. Muitos relataram que a fome, a exaustão e a hostilidade dos moradores locais destruírm as suas esperanças de começar uma nova vida na Europa.
Aqueles que retornavam à cidade de Fnideq, no Marrocos, disseram à agência Reuters que foram atraídos por vídeos virais nas redes sociais e mensagens de amigos, sugerindo que a fronteira, em geral sob forte esquema de segurança, estaria vulnerável e apta a travessias.
No entanto, ao chegarem a Ceuta, perceberam que não havia meios de prosseguir viagem até a Espanha continental.
“Viemos em busca de progresso, não para sermos enganados”, afirmou Brahim, um padeiro da cidade marroquinta de Fez que abandonou o emprego e cruzou a fronteira após ver vídeos de milhares de pessoas fazendo o mesmo. “Achei que construiria um futuro melhor lá. Mas fui surpreendido em Ceuta.”
Brahim relatou ter sobrevivido por três dias apenas à base de água, sem condições financeiras de arcar com os preços inflacionados dos alimentos no lado espanhol. “Como é possível venderem um sanduíche de atum por 100 dirhams, cerca de R$ 51?”.
Em Fnideq, cidade do Marrocos situada na fronteira com Ceuta, a Reuters registrou ruas praticamente vazias em direção ao posto de fronteira —um cenário de forte contraste em comparação às multidões reunidas no local na quinta-feira (30).
Jovens caminhavam em sentido oposto à fronteira ao longo da rodovia ou aguardavam táxis para sair de Fnideq, onde o comércio também permaneceu fechado por dias.
Os relatos dos migrantes incluíram queixas recorrentes sobre supermercados e lojas fechadas, o que os obrigou a procurar comida e água enquanto esperavam as roupas molhadas secarem nas ruas.
“Ceuta parecia uma prisão —não havia nada para fazer. Estava tudo fechado”, afirmou um funcionário do porto marroquino de Tanger Med, que pediu para não ter o nome divulgado por precisar retornar ao trabalho.
Alguns migrantes também acusaram moradores de El Príncipe, um bairro predominantemente marroquino em Ceuta, de os atacarem e expulsarem.
O garçom marroquino Yassine Ichou relatou ter sido agredido e perseguido no local. “Eles impuseram um cerco para nos forçar a sair de Ceuta por conta própria. Conseguiram o que queriam”, acrescentou, referindo-se ao fechamento generalizado do comércio.
O Ministério do Interior da Espanha afirmou que duas pessoas sofreram ferimentos leves em ataques de faca em incidentes distintos, e que a polícia prendeu um dos agressores. Não foram registradas mortes por armas brancas na cidade desde quinta-feira, segundo a pasta.
Rachid, funcionário de um hotel em Fnideq próximo ao cruzamento, afirmou que todos os seis empregados da cozinha abandonaram o trabalho rumo a Ceuta no auge do fluxo migratório e nenhum retornou, forçando a gerência a procurar substitutos.
Lá Fora
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Do outro lado da fronteira, em Ceuta, cafés reabriram e voltaram a receber clientes na medida em que a cidade retomava gradualmente seu ritmo normal. A maioria das lojas, no entanto, permaneceu fechada, enquanto viaturas policiais patrulhavam as ruas em uma clara demonstração de reforço na segurança.
“Tomamos a iniciativa de abrir porque, no fim das contas, a vida precisa voltar ao ritmo normal, mas a nossa segurança e a dos nossos funcionários vêm sempre em primeiro lugar”, disse Marina Castaño, de 24 anos, cujos pais são proprietários de dois cafés no centro.
Alguns residentes relataram que o clima nos arredores da cidade ainda permanece tenso.
Um socorrista de um centro de recepção de migrantes informou que o local está com capacidade máxima e impossibilitado de acolher mais pessoas, estimando que milhares ainda continuam no exclave.
Tito, proprietário de uma loja de ferragens que mantinha o estabelecimento fechado, afirmou que a chegada repentina de tantas pessoas deixou a população assustada, mas também empática com a situação.
“Você se sente sobrecarregado e, ao mesmo tempo, impotente”, afirmou. “Esses jovens estão sendo completamente explorados. Estão sendo usados como moeda de troca.”
Alguns residentes relataram que o clima nos arredores da cidade ainda permanece tenso.
Um socorrista de um centro de recepção de migrantes informou que o local está com capacidade máxima e impossibilitado de acolher mais pessoas, estimando que milhares ainda continuam no enclave.
Tito, proprietário de uma loja de ferragens que mantinha o estabelecimento fechado, afirmou que a chegada repentina de tantas pessoas deixou a população assustada, mas também empática com a situação.
“Você se sente sobrecarregado e, ao mesmo tempo, impotente”, declarou. “Esses jovens estão sendo completamente explorados. Estão sendo usados como moeda de troca.”
Mohamed Ahmed, um sudanês de 43 anos, contou que um caminhão o deixou, junto com outros migrantes, perto da fronteira e que ele nadou por quatro horas até alcançar Ceuta.
Ele relatou que a polícia os estava impedindo de acessar a estrada que leva ao centro de acolhimento de migrantes, mas afirmou continuar determinado a permanecer na Espanha.
“Não vou voltar. Prefiro morrer tentando aqui”, declarou.


