A conferência pelo abandono dos combustíveis fósseis na Colômbia chegou ao fim, nesta quarta-feira (29), cumprindo, pelo menos aparentemente, o desenho ao qual tinha se proposto: discutir o fim das fontes fósseis de energia, dando nome ao problema —a energia fóssil— e com menos tradicionais travas diplomáticas —muitas vezes regadas pelo próprio petróleo e seus derivados.
Resta, porém, saber de que formas as ideias debatidas serão, de fato, concretizadas ou como darão impulsos a ações de atores climáticos. A entrega de um documento detalhado sobre o processo e os resultados foi prometida para junho deste ano.
“É possível outra democracia ambiental”, afirmou Irene Vélez-Torres, ministra de Meio Ambiente da Colômbia.
Esta foi a primeira edição da Taff (sigla em inglês para “Transitioning away from fossil fuels”, algo como transição para longe dos combustíveis fósseis). O evento na cidade colombiana de Santa Marta foi realizado em parceria com os Países Baixos.
O encontro reuniu 57 países e muitos dos principais países emissores de gases-estufa —China, Estados Unidos e Rússia— não foram sequer convidados.
A representação do Brasil ficou por conta de Ana Toni, diretora-executiva da COP30 em Belém, e de Aloísio Melo, secretário nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente.
Durante a conferência, houve a criação de três grupos de trabalho. Todos, segundo Vélez-Torres, não apontam só temas de discussão mas também pontos para ação.
O primeiro grupo trabalhará com o desenho dos mapas do caminho para o abandono dos combustíveis fósseis. Não apenas do ponto de vista de energia. “NDCs [as metas climáticas determinadas pelos países] têm um ponto cego. Não estamos vendo e agindo sobre emissões ‘exportadas’ para outros países”, disse Vélez-Torres.
A ideia, segundo a ministra, é que os mapas dos caminhos e as NDCs estejam conectados, o que aponta para uma preocupação da Taff em não antagonizar —ao menos não de modo total— as COPs, conferências da ONU sobre mudanças climáticas, tornando-se complementares a elas.
Esse primeiro grupo será apoiado pelo NDC Partnership e pelo SPGET (sigla em inglês para Painel Científico para a Transição Energética Global), uma equipe de cientistas, com sede na USP, em São Paulo. Esse time, outro resultado da Taff —um dos mais tangíveis e imediatos do evento—, é uma herança direta da última conferência climática da ONU e de uma ideia que partiu de Ana Toni.
O segundo grupo de trabalho se concentrará em arquitetura financeira e dependência macroeconômica dos combustíveis fósseis, olhando para questões fiscais, subsídios e dívidas. Será auxiliado pelo IISD (sigla em inglês para Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável).
O último grupo estará dedicado à balança comercial e de investimentos para a descarbonização, com suporte da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Na plenária de encerramento, Stientje van Veldhoven, ministra do Clima e do Desenvolvimento Verde dos Países Baixos, que liderou o evento com Vélez-Torres, reforçou a busca pela complementaridade da Taff com as conferências da ONU.
Ela destacou também outros três pontos: ciência —os primeiros dias do evento foram dedicados a encontros de cientistas; inclusão —foi continuamente afirmada durante a conferência a abertura para participação civil, algo consideravelmente limitado em COPs; e transparência.
As ministras líderes da conferência mencionaram ainda o impulso das discussões e seus possíveis impactos e defenderam a continuidade do processo. A ideia foi materializada na oficialização de Tuvalu e Irlanda como a próxima dupla a receber a conferência, como havia adiantado a Folha.
O evento está programado para acontecer na ameaçada ilha de Tuvalu, em 2027, e haverá uma pré-conferência na Irlanda. Maina Vakafua Talia, ministro de Assuntos Internos, Mudanças Climáticas e Meio Ambiente do diminuto país-ilha, garantiu que a nação tem capacidade física para hospedar o encontro.
“Esse é o primeiro encontro multilateral que não achei frustrante”, afirmou, em tom de brincadeira, Vélez-Torres. Durante a conferência, não foram raras as críticas ao processo e as travas das COPs.
Presente em um dia do evento, o presidente colombiano, Gustavo Petro, criticou em seu discurso a ONU e as conferências climáticas da organização, mencionando inclusive a COP30, realizada no Brasil no ano passado.
Durante toda a conferência Stientje afirmou diversas vezes que o processo de Santa Marta —como foram chamadas as discussões— não era uma negociação, tal qual vemos em COPs. A ministra dos Países Baixos apontava a abertura para diálogo e aprendizagem.
A afirmação, que não convence alguns observadores, reverbera novamente nas COPs, onde as negociações e disputas climáticas estão no centro do jogo.
Quando questionadas sobre as obrigações dos países em relação aos resultados da conferência de Santa Marta, as ministras responderam sobre o trabalho em conjunto, relembrando a ideia de “coalition of the willing” (coalizão dos dispostos a mudar) que muito foi falada nos dias anteriores.
“A psicologia do processo de Santa Marta é algo que queremos levar adiante”, afirmou Stientje.
“O futuro é sem fósseis, nem nos combustíveis, nem na política”, acrescentou Irene.


