CPI pega STF e livra políticos - 18/04/2026 - Celso Rocha de Barros

CPI pega STF e livra políticos – 18/04/2026 – Celso Rocha de Barros

O relatório da CPI do Crime Organizado escrito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu indiciamento de três ministros do STF e do procurador-geral da República. Não indiciou os políticos (em geral, de direita) que roubaram com o Master, ganharam dinheiro do Master e tentaram salvar o Master com dinheiro público.

A leitura do relatório deixa claro que Vieira tentou transformar a CPI do crime organizado em CPI do Banco Master.

Até aí, várias CPIs já trataram de temas diferentes dos que inspiraram sua instalação: o mensalão, por exemplo, foi investigado em uma CPI sobre bingos.

O problema é que, como relatório de uma hipotética CPI do Master, o trabalho de Alessandro Vieira é ruim.

O viés do relator fica claro na página 60 do relatório, onde são discutidas as conexões do Banco Master com as instituições da República.

Quando fala dos órgãos reguladores, o relatório cita nominalmente os dois funcionários do Banco Central acusados de receber suborno de Daniel Vorcaro. Quando fala do Judiciário, Vieira também cita Toffoli nominalmente. Na hora de falar de políticos, o relatório não dá nomes. Os casos de governadores e prefeitos que colocaram dinheiro de aposentados no Master não são sequer discutidos.

O viés anti-STF e pró-políticos do relatório final da CPI fica claro também quando olhamos para quem votou a favor e contra sua aprovação.

Os votos pela aprovação do relatório foram dados por parlamentares do MDB, do PP, do Novo e do PL. À exceção do Novo, todos estão no centro do escândalo Master.

Do PP saiu Ciro Nogueira, que tentou aumentar a cobertura do FGC por emenda constitucional; do PL saiu Filipe Barros, que tentou fazer a mesma coisa por projeto de lei. PP, PL e MDB assinaram o requerimento 3.651/2025, que pedia urgência para o projeto que autorizaria o Congresso a demitir os diretores do Banco Central que se opusessem ao salvamento do Master com dinheiro público. Do MDB saiu Ibaneis Rocha, que deu ao Banco de Brasília um prejuízo avaliado entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões tentando salvar o Master. Do PL saiu Cláudio Castro, o governante brasileiro que mais colocou dinheiro de aposentados no Master (R$ 1 bilhão).

Os votos contrários ao relatório foram dados por parlamentares do PT, do PSD e do PSB.

O PT tem gente da Bahia envolvida com um sócio de Vorcaro. O PSD tem prefeitos do interior de São Paulo que investiram dinheiro de previdência no Master. Dos três partidos, só o PSB assinou o requerimento 3.651 de 2025.

Ou seja: os partidos dos parlamentares que votaram a favor do relatório de Alessandro Vieira estão muito mais enrolados com o Master do que os partidos dos parlamentares que votaram contra.

Não é por acaso: ao jogar toda a culpa no STF, o relatório da CPI tira o foco dos políticos e abre um espaço para as críticas bolsonaristas ao STF parecerem legítimas. Cria uma aliança natural entre uma multidão de políticos direitistas “moderados” enrolados com o Master e bolsonaristas anti-STF que, aliás, também são enrolados com o Master.

Se tivesse contado a história toda, o relatório da CPI teria sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4. Mas não ajudaria a direita a ganhar a Presidência como recompensa por ter quebrado um banco.


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