Ao redor do mundo, cientistas enfrentam um debate intenso que pode ter efeitos de longo prazo para os eventos climáticos extremos e tragédias: as mudanças climáticas estão tornando o El Niño mais intenso?
O El Niño, fenômeno natural que ocorre a cada poucos anos e eleva as temperaturas globais, acaba de começar e deve continuar até 2027. Cientistas afirmam que o atual provavelmente será potente e pode quebrar recordes.
À medida que os gases de efeito estufa aquecem o planeta, os eventos de El Niño nas últimas décadas têm sido comparativamente fortes. A sequência eventos intensos desde a década de 1980 se destaca quando comparada aos últimos 600 anos.
Isso levou alguns cientistas a sugerir que as mudanças climáticas estão turbinando o El Niño. Outros dizem que não há evidências claras para apoiar essa teoria.
“É altamente contestado”, disse Kim Cobb, cientista climática e diretora do Instituto para Meio Ambiente e Sociedade da Universidade de Brown, em Rhode Island (Estados Unidos).
A questão é crucial, pois o El Niño afeta os padrões climáticos globalmente, muitas vezes de formas devastadoras —elevando as temperaturas, aumentando a probabilidade de seca em alguns lugares e inundações em outros. Os eventos são essencialmente anomalias oceânicas, e se as mudanças climáticas tornam essas anomalias maiores em tamanho, isso significa mais caos e danos.
Mas o debate mostra que há limites para quanto os cientistas podem compreender plenamente algumas das consequências mais complicadas do aumento das emissões de gases de efeito estufa, que resultam principalmente da queima de combustíveis fósseis.
Os eventos de El Niño são notoriamente complexos. Eles não são impulsionados por uma única causa, mas por uma série de ciclos de retroalimentação no oceano e na atmosfera. A Noaa, agência americana de oceanos e atmosfera, já descreveu o El Niño e a La Niña, como ciclos “controlados por centenas de interruptores de luz” (como os dimmers). As mudanças climáticas podem mexer com esses interruptores, aumentando alguns e diminuindo outros. Mas isso leva a um sinal mais forte ou mais fraco?
“O El Niño é a parte mais ruidosa do sistema climático”, disse Axel Timmermann, diretor do Centro IBS de Física do Clima em Busan, Coreia do Sul. “Estamos tentando procurar uma mudança no ruído.”
Dos 16 cientistas que conversaram com o The New York Times, oito disseram ver evidências convincentes de que as mudanças climáticas provavelmente estão aumentando a intensidade dos eventos de El Niño. Entre eles está Michael McPhaden, cientista sênior da Noaa, que alertou que a ciência é “muito incerta”, mas disse que o desenvolvimento de outro El Niño forte neste ano seria “bastante notável”.
Se o atual El Niño atingir as proporções que muitos preveem, isso significaria que 3 dos 6 eventos mais fortes desde 1950 ocorreram nos últimos 11 anos.
Os eventos de El Niño são medidos observando mudanças nas temperaturas da superfície do mar em uma vasta zona retangular no Pacífico central, onde as temperaturas estão atualmente disparando. Muitas previsões indicam que, neste ano, as temperaturas lá podem subir mais de 3º C acima da média de longo prazo, dando origem a um El Niño de amplitude sem precedentes.
“Pode ser evidência de que um sinal de mudança climática no ciclo Enos [El Niños e La Niñas] de hoje está começando a emergir do ruído de fundo”, disse McPhaden.
Talvez o argumento mais assertivo seja feito por Wenju Cai, cientista da Universidade Oceânica da China, que passou mais de 20 anos rodando modelos climáticos e tentando identificar uma potencial ligação entre o aumento das emissões e El Niños mais poderosos.
Em um estudo de 2023 publicado na Nature, Cai e outros cientistas simularam centenas de anos de eventos de El Niño e La Niña em um mundo imaginário onde as concentrações de gases de efeito estufa permaneceram nos baixos níveis de antes da Revolução Industrial. As chances de tal mundo produzir uma sequência de 60 anos de eventos fortes comparáveis aos tempos modernos: 2,5%. “É quase impossível ter isso sem as mudanças climáticas”, disse Cai.
Muitos modelos voltados para o futuro também projetam que a intensidade do El Niño aumentará.
Ainda assim, outros cientistas alertam que os modelos podem ter falhas. Eles observam que há limites no registro histórico. Leituras oceânicas precisas remontam à década de 1950. Um relato razoável das temperaturas oceânicas, a partir de diários de bordo de marinheiros, estende-se até o século 19.
Além disso, os cientistas tentaram entender as flutuações do El Niño procurando assinaturas de mudanças climáticas e de temperatura deixadas em corais e anéis de árvores. Isso fornece uma estimativa importante sobre a amplitude e frequência de eventos passados, mas não certeza.
Clara Deser, cientista sênior do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, disse que os El Niños das últimas décadas podem ser “apenas um sinal aleatório”.
“Eu sou a cientista ‘cética'”, afirmou Deser. “Quanto disso é apenas devido ao caos no sistema climático que pode dar a você uma sequência inteira de caras —ou coroas— sem razão aparente?”
Como não há consenso, grupos científicos tendem a agir com cautela. Em 2021, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU), o principal órgão científico climático do mundo, escreveu que havia “baixa confiança” de que as mudanças climáticas causadas pelo homem influenciaram as mudanças no El Niño e La Niña.
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No início deste mês, a OMM (Organização Meteorológica Mundial), em um comunicado sobre o El Niño em desenvolvimento, disse que “não há evidências de que as mudanças climáticas aumentem a frequência ou intensidade dos eventos de El Niño”.
Em resposta à reportagem, a OMM declarou que sua posição reflete “o atual estado avaliado da ciência”.
“No entanto, é importante também reconhecer o debate científico em andamento”, disse a organização. “Esta não é uma questão científica resolvida.”
Cobb, autora principal do IPCC, disse que pessoalmente acredita que as mudanças climáticas estão intensificando o padrão. Em 2019, ela foi coautora de um artigo de pesquisa, baseado em análise de corais, que concluiu que os extremos modernos do El Niño eram “significativamente mais fortes do que os da era pré-industrial no Pacífico tropical central”.
Há amplo consenso de que qualquer El Niño ocorrendo agora, comparado com os tempos pré-industriais, produzirá mais extremos ao redor do mundo, com uma atmosfera mais úmida intensificando inundações e temperaturas mais altas amplificando secas.
“As condições do El Niño vão jogar combustível no fogo de um mundo em aquecimento”, disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, neste mês. “Os impactos serão ainda mais fortes.”


