O El Niño é o agente do caos naturalmente recorrente do planeta, embaralhando padrões climáticos, elevando as temperaturas globais e, em geral, atingindo força máxima em dezembro.
Mas o El Niño deste ano, que deve quebrar recordes, já está forte e produzindo grandes efeitos, levando a recordes de calor e provocando períodos de seca e quebras de safra em vários continentes.
Partes do Panamá, normalmente um dos países mais chuvosos da Terra, não registram uma grande tempestade desde o início de maio. As terras altas férteis da Etiópia enfrentam um dos verões mais secos em quatro décadas. E a Índia teve seu quinto junho mais seco desde que os registros modernos de chuva do país começaram, em 1901.
Chris Funk, diretor do Centro de Riscos Climáticos da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, chamou o fenômeno de um “El Niño de início precoce”.
Essas consequências em terra firme refletem a magnitude das mudanças no oceano Pacífico —o acúmulo de águas anormalmente quentes na superfície, na região do Pacífico equatorial, é o que caracteriza o El Niño. Esses episódios ocorrem a cada dois a sete anos e contribuíram para oscilações planetárias ao longo de milênios. Mas o deste ano está a caminho de ser o mais forte em quase 80 anos de registros.
Cientistas discutem se as mudanças climáticas causadas pelo ser humano estão aumentando as chances de eventos de El Niño mais fortes e mais frequentes.
Nas últimas décadas, os El Niños foram comparativamente intensos, mas a sua formação depende de variáveis complexas, e alguns especialistas argumentam que a tendência recente pode ser apenas algo aleatório.
O que está claro é que as oscilações do El Niño estão se somando às tempestades mais fortes, às secas mais intensas e aos incêndios florestais mais ferozes que o aquecimento global já vem provocando. O El Niño vai amplificar esses fenômenos em algumas regiões e pode elevar as temperaturas globais a níveis recordes no próximo ano, à medida que o calor do Pacífico se espalhar pelo mundo.
“O que veremos em 2027 é uma prévia do que será o novo normal em 2035”, afirma Zeke Hausfather, cientista climático da Berkeley Earth, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos. “Veremos coisas que nunca aconteceram antes em nossa história em termos de temperatura, seca, calor extremo.”
Um ano de calor extremo
Os eventos de El Niño são medidos observando-se as temperaturas da superfície do mar em uma zona retangular específica do oceano Pacífico. As temperaturas ali dispararam nos últimos três meses, e as previsões sugerem que, até o fim do ano, elas podem superar os níveis normais por uma margem maior do que a observada durante os El Niños mais fortes da história moderna —ocorridos em 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
Entre outubro e dezembro, a Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) afirma que há mais de 90% de chance de as condições do El Niño serem “muito fortes”, o que significa que a temperatura média de três meses nessa zona do Pacífico ficará ao menos 2°C acima do normal. Mas as previsões mostram que as temperaturas diárias do oceano nesse período podem saltar para mais de 3°C acima da média.
“Talvez 3°C ou até 4°C não pareça algo tão grande. Vemos essa variação de temperatura ao longo de um dia”, diz Samantha Stevenson-Karl, professora associada e modeladora climática da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara. “Mas o oceano não muda tanto. Tipo, nunca.”
O calor extra nas águas do Pacífico também afeta as temperaturas do ar. Nos primeiros meses do ano, 2026 foi bem mais frio do que 2024, o ano mais quente já registrado no planeta. Ainda assim, Hausfather acredita que há uma chance de 40% de 2026 ser o ano mais quente já registrado na Terra. Segundo a Noaa, o mês passado empatou com julho de 2024 como o julho mais quente do mundo desde o início dos registros globais, em 1850.
Aumento da fome
O El Niño provoca grandes mudanças nos ventos que levam ar úmido pelos oceanos, e os efeitos sobre a agricultura estão começando a aparecer em algumas regiões. Até o fim do ano, o fenômeno pode fazer com que quase 50 milhões de pessoas a mais em todo o mundo enfrentem fome aguda, um aumento de cerca de um quinto, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas.
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O fenômeno já está trazendo seca para partes do Sudeste Asiático, atrasando a semeadura de arroz e outras culturas na Tailândia, no Camboja, no Vietnã e nas Filipinas. Na Índia, as chuvas de monção aumentaram em algumas regiões nas últimas semanas, embora grandes áreas do país continuem com déficit de precipitação.
Na outra extremidade do Pacífico, o El Niño atrasou o plantio e prejudicou o crescimento das lavouras na América Central. As chuvas na Guatemala ficaram até 85% abaixo da média em julho, e o estresse sobre as plantações foi agravado por temperaturas muito acima do normal.
É difícil prever exatamente quão abaixo do normal ficará a chuva na América Central nos próximos meses, disse Steven Paton, que monitora os oceanos e a atmosfera no Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais, no Panamá.
Isso porque os modelos computacionais dos cientistas são treinados com eventos passados. O El Niño deste ano deve ser tão mais forte do que qualquer episódio já registrado que não podemos ter certeza da precisão com a qual os modelos vão antecipar seus efeitos.
“No mínimo, vai ser tão ruim quanto o pior que já vimos antes, possivelmente muito pior”, disse Paton.
Na África Oriental, o El Niño costuma trazer chuvas fortes, e até enchentes e deslizamentos de terra, de novembro a janeiro. Mas, quando o fenômeno aparece mais cedo no ano, pode reduzir as chuvas em partes da região, incluindo o oeste do Quênia e a Etiópia.
Essa tem sido a dura realidade nos últimos meses, disse Chris Shitote, cientista baseado em Nairóbi, no Quênia, da Rede de Sistemas de Alerta Precoce contra a Fome, uma agência vinculada ao Departamento de Estado dos EUA.
Shitote e alguns colegas viajaram recentemente pelos condados produtores de grãos do oeste do Quênia. A colheita de milho foi surpreendentemente ruim, disse ele. “É algo que alguns de nós não vimos talvez nos dez anos em que temos ido a campo.”
Plantas que normalmente chegam a 2,7 metros de altura não passaram de 1,8 metros, disse Shitote. Uma colheita típica poderia render de 10 a 15 sacas de milho por hectare de plantação, disseram-lhe os produtores. Neste ano, parece que poderá ser apenas uma ou até mesmo meia saca por hectare.


