Pela primeira vez, um muçulmano tem chance de se eleger para o Senado americano. Mas as chances de o médico progressista Abdul El-Sayed derrotar seu rival republicano em novembro se confirmaram mais escassas, já que a sua vitória sobre uma candidata centrista na primária democrata da terça-feira (4), em Michigan, não passou de 1% dos votos.
Não deixa de ser uma vitória histórica, que os crédulos comentaristas dos programas da TV a cabo compararam à primeira e mais ampla vitória de Barack Obama sobre Hillary Clinton numa primária presidencial de janeiro de 2008. Exageros à parte, a campanha de Michigan parece apontar tendências que pouco têm a ver com a longínqua vitória de Obama.
Cerca de US$ 70 milhões (R$ 358 milhões) foram gastos –90% da dinheirama investida para derrotar El-Sayed, ex-professor da Universidade de Columbia e ex-diretor de saúde do governo de Michigan. Disparado à frente dos que doaram para a democrata Hayley Stevens está o Aipac –o poderoso e controverso lobby pró-Israel. Cada voto anti-El-Sayed teria custado aos doadores US$ 95 (R$ 486).
Portanto, diante da vitória do filho de imigrantes egípcios que pediu votos com o slogan “Dinheiro fora da política e no seu bolso”, o fato de que a classe bilionária dos EUA está inundando as campanhas de republicanos com quantias que deixam os democratas na rabeira das finanças não é garantia de sucesso.
A campanha de El-Sayed evocou as trajetórias insurgentes das duas estrelas nova-iorquinas da ala progressista da política americana, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o prefeito Zohran Mamdani. Começou por provocar angústia na liderança centrista que fincou o pé no apoio aos opositores dos três candidatos para amargar derrota na eleição primária.
Mas a vantagem apertada de El-Sayed deixa claro que ele não teve apoio expressivo entre grupos que precisa atrair para derrotar o republicano trumpista Mike Rogers em novembro, na eleição do estado-pêndulo que é crucial para o controle do Senado. Análises iniciais sugerem que eleitores negros e outros democratas com menos escolaridade votaram na moderada Hayley Stevens. El-Sayed contou com o apoio de eleitores mais educados e jovens universitários, uma coalizão precária.
Lá Fora
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Este ano de vitórias eleitorais para candidatos social-democratas –El-Sayed deixa claro que é a favor do capitalismo– está expondo outra fenda preocupante para o Partido Democrata: eleitores negros, mesmo quando concordam com a mensagem econômica de progressistas, são historicamente chamuscados pelos retrocessos em seus direitos civis e não se encantam com agendas de conteúdo antiestablishment.
Como Zohran Mamdani, El-Sayed é alvo constante de propaganda conspiratória sobre sua religião e não se torna defensivo. “Eu encosto o rosto no chão 34 vezes por dia, em oração”, reagiu exasperado à pergunta de um jornalista, concluindo que não pede para ser compreendido e, sim, respeitado.
Michigan, a sede histórica da indústria de automóveis dos EUA, foi um dos estados mais punidos pelas tarifas comerciais de Donald Trump, com perdas de milhares de empregos. A mensagem de assistência médica para todos e mais dinheiro no bolso poderia ganhar força até novembro.
E se o pleito de novembro for definido pelo sentimento contra o establishment, não devemos esquecer qual é o partido atualmente no controle da Casa Branca e das duas Casas do Congresso.
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