Seis horas da manhã e escuto o baque do jornal contra a porta. Gosto de ler a versão impressa. Na seção de cultura, notícias sobre a Flip, que começa no dia 22 de julho. Meu coração acelera, me vem à cabeça um nome: Anthony Bourdain.
Em 2005, eu tinha 24 anos e estava sempre em busca de um frila, quando uma amiga me ligou: “Alice, estou com um trabalho pra você. É fácil, basta receber um gringo em São Paulo e depois acompanhá-lo por dois dias a Paraty. Ele vai participar da festa literária. A grana é boa”. Não pensei duas vezes.
O gringo era um cozinheiro famoso que tinha lançado o livro “Cozinha Confidencial”. Comprei o livro e li de uma sentada só. Pelo visto, o autor era divertido, ainda que um tanto esnobe, pensei.
Marcamos um encontro num restaurante. Eu já estava sentada, folheando o livro, quando escuto: “Élice”. Olhei para cima e perdi o fôlego. Vi um homem alto, bonito, na casa dos 50, com um olhar sedutor. Conversamos por uma hora. Eu o sondava, procurando saber se o cozinheiro do livro era ele ou um recurso literário. Ele desviava o assunto e perguntava de mim, dos lugares que achava legais, onde costumava comer, me divertir etc.
Fui falando, meio intimidada pelo charme do interlocutor. A cada dica que eu dava, ele dizia: “Excellent!” Na época, eu bebia e fumava. Lembro ter acompanhado os copos de caipirinha que ele virava enquanto me escutava e fumava um cigarro atrás do outro. Fiquei espantada com a lucidez dele, mesmo bebendo tanto. Que sujeito! Animado e completamente acessível. Nenhum pingo esnobe. Saí do restaurante apaixonada.
No dia seguinte, viajamos para Paraty. Foram dois dias de conversa ininterrupta, mas agora acompanhados por uma equipe de filmagem que o seguia em todos os eventos. Fantasiei ir embora com ele, passear por todos os continentes, ainda que ele não desse nenhuma pista de que queria ser meu noivo…
“Sei que sou sortudo, viajo mundo afora, como em lugares incríveis, conheço pessoas maravilhosas e sou pago para isso”. O slogan do programa de TV dele era: “Como, viajo e estou sempre com fome para mais”. Ou seja, uma pessoa insaciável. Foi um dos trabalhos mais maravilhosos que pude fazer e um dos caras mais incríveis que pude conhecer.
No dia 8 de junho de 2018, eu estava entrando na padaria quando vi o rosto dele na TV. “Morre Anthony Bourdain”, dizia a legenda da imagem. O quê??? Comecei a chorar ali mesmo. Como assim? Suicídio.
Como é que um cara que desfrutava de tanta coisa boa terminava a vida por vontade própria? O que o levou a interromper uma trajetória (a meus olhos) tão maravilhosa?
A caminho do trabalho, fiquei pensando nele. Depois que ele foi embora do Brasil, continuamos a manter contato por mensagens. Fui assimilando a notícia e tentando entender. Teria sido movido por sua insaciabilidade, que também o levava a beber, fumar e consumir outras drogas?
Entendi seu gesto: ele não tinha mais nada a conhecer. Ou talvez não quisesse conhecer mais nada.
Minha paixão será eterna. Guardo comigo a dedicatória linda que ele me fez e as mensagens que ele me mandou. Depois de sua morte, não fui atrás de mais notícias, nem vi os documentários sobre ele. Me bastei com o que ficou dentro de mim.
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