Quando Dina Gottliebova Babbitt esteve presa no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na década 1940, ela se manteve viva pintando aquarelas em um cavalete precário para Josef Mengele, o médico nazista conhecido como o “Anjo da Morte”.
Ao longo de toda a vida, Babbitt tentou recuperar sete dessas obras do Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. “Quero segurá-las em minhas mãos”, disse Babbitt num vídeo de 2009, poucos meses antes de morrer, aos 86 anos. “Quero que elas fiquem aqui. Preciso delas.”
Mas o museu se recusou a entregá-las, alegando que o valor histórico e educativo das pinturas se sobrepunha ao direito de propriedade da artista.
Agora, as duas filhas de Babbitt —Michele Babbitt Kane e Karin Wendy Babbitt—estão processando o museu para obter a devolução dos retratos em aquarela criados pela mãe enquanto ela lutava para sobreviver como judia em um campo de extermínio nazista.
“Em seguida, Mengele tomou dela os retratos concluídos”, afirma a ação, apresentada na segunda-feira ao Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Central da Califórnia. “Dina Gottliebova Babbitt jamais vendeu, cedeu, transferiu ou abriu mão voluntariamente das aquarelas. Ainda assim, mais de 80 anos depois, as sete aquarelas seguem em poder do Museu, que alega ser ele —e não os herdeiros de Dina Gottliebova Babbitt— o proprietário das obras.”
O Museu de Auschwitz-Birkenau, instalado no antigo campo de extermínio na Polônia, defendeu sua decisão de manter as pinturas, descrevendo-as como importantes registros da perseguição nazista.
“Compreendemos plenamente a relação emocional da família de Dina Gottliebova com as obras que ela produziu por ordem de Josef Mengele, em circunstâncias que certamente marcaram sua vida”, afirmou Pawel Sawicki, porta-voz do Memorial de Auschwitz. “Mas, no cumprimento de nossa responsabilidade estatutária, expressamos a profunda convicção de que as aquarelas devem permanecer no Memorial.
“Os retratos, de vítimas roma, estão entre os poucos fragmentos remanescentes da documentação produzida por Mengele no âmbito de seus experimentos criminosos”, acrescentou Sawicki. “Portanto, devem ser tratados como documentos únicos relacionados à história de Auschwitz.”
Seis das pinturas de Babbitt hoje no museu foram adquiridas em 1963 de um sobrevivente do campo. A sétima foi adquirida em 1977. O museu afirmou que argumentará que os artefatos do antigo campo são propriedade do Estado, com base nas leis polonesas e no estatuto da instituição.
O artigo 4º de uma lei de 1947 que criou o museu estabelece: “O Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, em Oswiecim, tem a incumbência de coletar e organizar provas e materiais relacionados aos crimes nazistas, disponibilizá-los ao público e realizar pesquisas acadêmicas sobre eles.”
Sharon Cohen Levin, do escritório Sullivan & Cromwell, advogada das filhas da artista, afirmou que as pinturas que Babbitt foi obrigada a criar “retratam pessoas submetidas aos experimentos médicos pseudocientíficos de Mengele e, por fim, executadas”.
Ela disse que o museu criado para homenagear as vítimas do Holocausto, neste caso, causou sofrimento a uma delas. “Em sua memória”, disse Levin, “as filhas de Dina dão continuidade ao trabalho de décadas da mãe, não apenas para recuperar aquilo que lhes pertence por direito, mas também para honrar a dignidade e o legado de Dina e obter alguma medida da justiça que lhe foi negada em vida”.
Nascida na Tchecoslováquia em 1923, Babbitt foi obrigada a abandonar as aulas de arte em 1939, quando os alemães invadiram o país. Em janeiro de 1942, ela e a mãe foram enviadas a Theresienstadt, um campo no norte da Tchecoslováquia, antes de serem transferidas para Auschwitz no ano seguinte.
A pedido de um companheiro de prisão responsável por um alojamento infantil, Babbitt pintou imagens de “Branca de Neve e os Sete Anões”, além de figuras de animais, usando tinta obtida às escondidas.
As obras atraóram Mengele, que “ordenou que ela fizesse retratos em aquarela de prisioneiros escolhidos por ele como cobaias para seu trabalho pseudocientífico”, diz a ação, porque a sua câmera não conseguia captar aquilo que ele dizia ser a “inferioridade racial” deles. Babbitt afirmou em entrevistas que concordou sob a condição de que ele poupasse ela e sua mãe das câmaras de gás.
Todas as pessoas que ela retratou foram posteriormente assassinadas no campo. Babbitt assinou e datou a lápis pelo menos seis das sete aquarelas como “Dinah 1944”, usando a grafia original de seu nome.
A ação afirma que Babbitt sentia compaixão pelas pessoas retratadas e atribuía às obras o mérito de ter salvo a sua vida e influenciado a vida de sua mãe e de seus descendentes. “Todos”, segundo a ação, ela teria dito, “existem hoje por causa destas pinturas”.
Após ser libertada de Auschwitz, Babbitt mudou-se para os Estados Unidos, onde trabalhou por quase 20 anos como assistente de animação em Hollywood para vários estúdios e ajudou a produzir personagens populares, entre eles Coyote, Piu-Piu e Patolino.
Além da lei de 1947 que criou o museu, a instituição cita como fundamento para manter as obras a Lei Polonesa dos Museus, de 1996, e seu próprio estatuto, emitido pelo Ministério da Cultura e do Patrimônio Nacional.
Ao longo dos anos, Babbitt recorreu a várias autoridades americanas que apoiaram a sua reivindicação e tentaram obter restituição via correspondências com o governo polonês e o museu. Após esgotarem tais vias, as filhas decidiram valer-se do Código de Processo Civil da Califórnia, que, em 2024, concedeu aos requerentes de obras de arte da era do Holocausto um prazo de dois anos para apresentar ações judiciais que, de outra forma, poderiam estar prescritas.
Na ação ajuizada nesta semana, as autoras pedem uma declaração de que Babbitt é a legítima proprietária, a devolução das pinturas e indenização por danos em valor não especificado.
Mas o museu sustenta que sua “responsabilidade estatutária é reunir e preservar todas as provas dos crimes e todos os objetos relacionados à história de Auschwitz”, disse o porta-voz, acrescentando: “Somos da opinião de que qualquer perda no acervo do Memorial constituirá dano irreparável”.


