Em Pernambuco, onde vivo, não é incomum escutar que a época preferida do ano é o mês de junho. Os festejos de São João conquistam muitos corações no Nordeste. Para alguns, trata-se de uma festa até mais importante que o Carnaval. Confesso que faço parte deste time. Ainda mais quando o São João deste ano acontece concomitantemente à Copa do Mundo.
Pena que só temos Copa do Mundo a cada quatro anos, o que aumenta a expectativa e a saudade. Tomara que a Copa do Mundo de Clubes, a partir do sucesso da edição do ano passado, se firme de vez, tornando-se uma constante no calendário futebolístico mundial. A Copa do Mundo feminina, a ser disputada no Brasil no ano que vem, também anima os corações mais saudosistas.
Mas, seja qual for a Copa do Mundo de que estejamos falando, todas elas padecem do mesmo mal. A Copa nos impõe uma relação abusiva. A cada quatro anos, a Fifa aparece com uma relação de “love bomb” na qual caímos como patinhos.
Não sabe o que é “love bomb”? Este é mais um termo anglófono para descrever um determinado tipo de relação abusiva entre parceiros, na qual quase sempre a mulher é a vítima.
O “love bombing” —ou bombardeio de amor— é uma tática de manipulação que consiste em demonstrações excessivas de afeto, elogios e atenção logo no início de um relacionamento. O objetivo é criar uma conexão intensa e rápida para desarmar a vítima, gerando dependência emocional para controle futuro. Exagero? Não em relação à Copa.
A Copa do Mundo aparece em nossas vidas com uma intensidade incrível, propondo-nos pelo menos três jogos por dia. Na primeira fase da Copa deste ano, a primeira com 48 times, teremos ainda mais overdose. Haverá dias com oito jogos!
Já sei que não conseguirei fazer mais nada a não ser assistir até os jogos mais bizarros da história das Copas, como Escócia x Haiti (Grupo C), Cabo Verde x Arábia Saudita (Grupo H) e Irã x Nova Zelândia (Grupo G).
O projeto “love bomb” da Copa cumpre, assim, a primeira etapa: a idealização. No “bombardeio de amor” inicial, você se sente a pessoa mais importante do mundo. Com jogos todos os dias, a gente se anima com aquele clima fraterno de encontro global. Há algo na Copa do Mundo que lembra a ONU em seus melhores dias, um encontro bonito de nações, todos unidos num propósito único.
Esta Copa traz ainda outra novidade. Antes das oitavas, teremos outra fase eliminatória, aumentando a emoção a cada rodada depois da fase de grupos. Mas é aí que os problemas começam.
O método “love bomb” dá o segundo passo: isolamento e controle. Após conquistar a confiança, a Copa começa a ditar regras e cercear nossa liberdade. A gente passa a viver em função dos jogos, organiza a vida profissional e afetiva em função das partidas. E aqui não estou falando apenas dos jogos do Brasil. Quem gosta de Copa como eu não para só para ver jogos da seleção canarinho, mas assistimos Jordânia x Argélia e Áustria x Jordânia (Grupo J) e Curaçao x Costa do Marfim (Grupo E).
Então vem a facada: desvalorização e descarte. Segundo a teoria “love bomb”, nesta etapa o afeto é substituído pela frieza, críticas ou silêncio, deixando a vítima confusa e tentando recuperar a atenção do início.
A partir das quartas de final, os jogos começam a rarear. Não tem mais jogos todos os dias. As partidas melhoram de qualidade, é verdade. Mas, para quem gosta de Copa, o jogo é só um detalhe. Já estamos intoxicados até a alma. Queríamos mais. A abstinência machuca. Começamos a suspeitar que estamos presos numa relação abusiva. Mas, como os jogos melhoram, fingimos que está tudo bem.
À medida que as fases classificatórias vão caminhando, cada vez temos mais tempo livre. Mas quem disse que queríamos tempo livre? A saudade de um jogaço como Uzbequistão X Congo (Grupo K) bate fundo. Os jogos vão ficando ainda mais espaçados, aquela emoção diária vai ficando na lembrança. Até a final, quando subitamente tudo acaba.
Em busca de uma solução para este drama de abuso emocional “love bomb”, consultei o oráculo do nosso tempo, a inteligência artificial. A minha IA de preferência disse: “Para evitar cair nesse tipo de armadilha, é fundamental impor limites, observar se o ritmo do parceiro é compatível com o seu e valorizar o seu espaço individual. Não tenha medo de desacelerar as coisas e observe se as atitudes condizem com as palavras.”
Essa tal de IA não sabe nada mesmo.
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