Stuttgart (Alemanha)
|Financial Times
O novo CEO da Porsche, Michael Leiters, rebateu as preocupações de que a fabricante alemã estaria exagerando na correção de sua estratégia para veículos elétricos, argumentando ser “injusto” classificá-lo como cético em relação a essa tecnologia.
Desde que assumiu o comando da Porsche, em janeiro, ele enxugou o grupo controlado pela Volkswagen para concentrar esforços no desenvolvimento de novos modelos a gasolina e recuperar os lucros afetados por sua transição excessivamente ambiciosa para os veículos elétricos.
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Divulgação/CN/AFP
Para compensar a queda vertiginosa das vendas na China, Leiters pretende recuperar a rentabilidade da Porsche com uma nova versão a combustão do Macan, seu modelo mais vendido, em 2028. Sobre o novo SUV de luxo K1, Leiters afirmou que a empresa ainda não havia decidido quais motores utilizar, mas adiantou que “ainda há mais procura por carros a gasolina” nos faixas de renda superiores.
A dispendiosa e demorada reformulação da linha de produtos —somada às conhecidas ressalvas de Leiters quanto aos elétricos— despertou preocupações sobre a estratégia de longo prazo da Porsche para esse mercado, num momento em que montadoras chinesas do segmento premium tentam ganhar espaço na Europa.
No entanto, Leiters disse ao FT, em sua primeira entrevista à imprensa internacional, que sua reputação de cético em relação aos veículos elétricos era injustificada.
“Acho que isso é injusto”, disse ele. “Precisamos recuperar nossa estratégia para os carros a gasolina, mas estou muito confiante de que, quando tivermos o Macan com motor a gasolina, ofereceremos aos nossos clientes uma gama muito equilibrada de carros elétricos e a gasolina”, apontou.A empresa continua levando adiante a versão elétrica de seu esportivo 718, cujo desenvolvimento já estava em curso quando ele assumiu o comando. Ainda assim, quando se trata de seu emblemático 911, Leiters insiste que “não haverá um 911 elétrico”.
A Porsche começou a reduzir sua aposta nos veículos elétricos antes da nomeação de Leiters. No entanto, pessoas que trabalharam com ele observaram que, havia muito tempo, ele parecia não acreditar que a demanda por modelos elétricos ganharia força no segmento de luxo. Durante sua gestão como CEO da McLaren, Leiters afirmou que esta tecnologia não estava pronta para os carros esportivos.
Analistas alertaram que o executivo precisa encontrar o equilíbrio ideal entre revitalizar os populares modelos a gasolina e garantir que a Porsche não fique para trás na transição de longo prazo para os veículos elétricos, agora cada vez mais liderada pela BYD e outras montadoras chinesas.
“Precisamos ter cuidado”, disse Leiters, para garantir que a empresa não faça um “investimento duplo” em veículos a gasolina e elétricos no mesmo segmento. “Essa é uma das questões difíceis para o nosso futuro.”
No caso do Macan, por exemplo, a resposta dos consumidores foi explícita. As vendas da versão elétrica caíram 40% na comparação anual durante o primeiro semestre, enquanto os modelos com motor a combustão subiram 2%, mesmo depois de a Porsche ter deixado de vender a versão a gasolina na Europa por não cumprir as normas de cibersegurança da UE.
Leiters afirmou não estar preocupado com a possibilidade de a Porsche ficar para trás nos modelos elétricos, sobretudo devido ao acesso às tecnologias da VW. Segundo ele, é improvável que os custos dos veículos elétricos e dos modelos a gasolina se igualem no curto prazo, o que significa que o aumento das vendas de elétricos continuará reduzindo as margens da Porsche.
Desde que assumiu o cargo de presidente-executivo, o executivo alemão simplificou os ativos não essenciais e chegou a um acordo com os sindicatos para cortar 9.000 postos de trabalho —ou cerca de 20% da mão de obra— até 2035.
A Porsche ainda enfrenta uma importante lacuna em sua linha de produtos até que a nova versão a gasolina do Macan esteja pronta, em 2028Leiters declarou que a montadora precisava reduzir “drasticamente” suas ambições de vendas e sua escala, dizendo que ela havia ficado “inchada” ao longo de duas décadas de crescimento impulsionado pela demanda chinesa.
“Diante de um ambiente difícil, precisamos repensar nosso modelo de negócios e a dimensão de nossa organização”, advertiu.
Em seu evento para o mercado de capitais na próxima semana, espera-se que Leiters apresente uma perspectiva muito mais realista para a China, ao mesmo tempo que reduzirá “drasticamente” o ponto de equilíbrio da empresa em comparação com o período em que ela registrava entregas anuais de cerca de 320 mil veículos e margem de lucro operacional de 18%, em 2023. No ano passado, sua margem despencou para 1,1%, com vendas de aproximadamente 280 mil carros, devido ao desempenho na China e ao oneroso recuo na estratégia para veículos elétricos.Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesApesar das rápidas medidas de reestruturação adotadas por Leiters, a Porsche continuou vendo queda nas vendas na China, com as entregas caindo 32% no primeiro semestre. A Volkswagen também emitiu recentemente um alerta sobre os lucros, atribuindo-o a uma baixa contábil de 6 bilhões de euros no valor de sua participação na Porsche e à desaceleração no maior mercado automotivo do mundo.
Leiters afirmou que não estavam previstos novos cortes de empregos e que as metas de margem de lucro operacional de médio prazo permaneciam inalteradas, entre 10% e 15%, mas alertou que a China continuaria representando “um enorme desafio”.
Ele previu “uma inflação incrível de lançamentos de produtos” no mercado chinês, com cerca de dois novos produtos chegando ao mercado todos os dias. Classificou isso como “autodestrutivo” e prevê uma consolidação, mas acrescentou: “A questão é: quanto tempo isso levará?”.Leiters encerrou as subsidiárias do grupo dedicadas a bicicletas elétricas, baterias e software, além de vender sua empresa de consultoria de TI à Tata Consultancy Services. No início deste mês, a Porsche também levantou cerca de 1 bilhão de euros com a venda de suas participações na Bugatti Rimac —sua joint venture com a fabricante de hipercarros elétricos Rimac— e no Rimac Group.
A Porsche ainda enfrenta uma importante lacuna em sua linha de produtos até que a nova versão a gasolina do Macan esteja pronta, em 2028. Enquanto isso, rivais chinesas como BYD e Xiaomi tentam entrar no mercado premium, há muito dominado pelas fabricantes alemãs.
Leiters afirmou que a Porsche e outras fabricantes alemãs conseguiriam igualar a velocidade e os custos das chinesas, não fosse a grande diferença nos custos de mão de obra e energia, além do ambiente regulatório europeu. “Se tivermos condições iguais de concorrência, não precisaremos temer nenhum concorrente”, disse.


