Reino Unido: conheça Burnham, que pode se tornar premiê - 22/06/2026 - Mundo

Reino Unido: conheça Burnham, que pode se tornar premiê – 22/06/2026 – Mundo

“Isso vai mudar hoje à noite. Esse resultado muda essa situação. Esse resultado vai criar um país que funciona de forma justa para todos. As pessoas daqui votaram pela mudança, votaram por mais poder para o norte e para todos os lugares esquecidos por Westminster. Agora, vamos devolver isso a elas.”

O discurso, em qualquer língua, soa de oposição, mas foi feito por Andy Burnham ao ser eleito membro do Parlamento britânico na semana passada. A pequena eleição no distrito de Markerfield pavimentou o caminho para o ex-prefeito da Grande Manchester se tornar o próximo primeiro-ministro do Reino Unido.

Burnham, que teve mais votos do que os candidatos da ultradireita somados, já parecia falar como o substituto de Keir Starmer, antevendo os acontecimentos desta segunda-feira (22). Seu colega de Partido Trabalhista anunciou a renúncia e disse que ficará no cargo até que a legenda decida por um pleito interno.

Ou, se não houver outros candidatos, Burnham seja ungido como o sétimo premiê britânico no espaço de uma década. Não por coincidência, dez anos de brexit, o controverso plebiscito que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia.

Burnham, 56, é um trabalhista histórico, mas de fato marcará uma mudança em Downing Street se alcançar o poder. Integrante da ala mais à esquerda do partido, deve romper com a tentativa de linha suave adotada por Starmer, supostamente a razão de seu sucesso eleitoral há dois anos.

Em 2024, após quatro premiês conservadores e o fracasso do brexit cada vez mais evidente, o atual premiê soava como uma mudança necessária e responsável. A seu turno, Burnham fizera o mesmo em Manchester, a partir de 2017, com a diferença nada sutil de ter se tornado um dos políticos mais populares do Reino Unido.

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O apelido de “Rei do Norte” veio junto com a ascensão econômica do reduto trabalhista, após anos de austeridade fiscal conservadora. Para os críticos, apenas uma carona que Burnham pegou em decisões anteriores à sua administração, como a abertura ao investimento estrangeiro na região e o fortalecimento do setor de serviços.

Para o ex-prefeito, uma marca de gestão, o “manchesterismo”, outro apelido que pegou e que ele promete levar para todo Reino Unido se confirmado pelo partido em julho. Entre os principais pontos da proposta de governo, menos poder para Londres (a política britânica é uma das mais centralizadas entre os países da OCDE), a busca de credibilidade fiscal e o combate a ineficiências provocadas por décadas de privatização e desregulação.

Exemplo do último item é o Bee Network, programa de popularização do transporte público na região de Manchester, que atropelou dogmas. Autoridades locais ganharam o poder de definir linhas, horários e preços. No limite, a reestatização de empresas de ônibus foi aprovada. O sistema se transformou em sucesso de público e trunfo eleitoral, com parte das medidas sendo reproduzida em outros locais da Inglaterra.

Tais bandeiras, notadamente as associadas à esquerda, provocaram solavancos no valor da libra e dos títulos públicos britânicos nos últimos dias. Curiosamente, nesta segunda, os mercados pouco flutuaram, demonstrando uma certa precificação da mudança.

Por outro lado, questões sociais prementes, como imigração, e a volta do Reino Unido à União Europeia ganharam comentários com menos explicações desde que Burnham ganhou status de pré-candidato: barrar os botes no canal de Mancha é prioridade, voltar a Bruxelas, nem tanto.

Perseguir aprovação pública a qualquer custo é uma das principais críticas feita ao trabalhista, membro do partido desde os 15 anos e ocupante de cargos importantes do governo Gordon Brown (2007 a 2010). Em 2010 e 2015, buscou sem sucesso a liderança da legenda. Diferentemente da ala social-democrata trabalhista, manteve-se como aliado próximo de Jeremy Corbyn, líder mais radical da sigla na década passada.

Foram essas raízes que o fizeram criar, ainda no ano passado, um grupo chamado “Mainstream Labour” para fazer frente ao que via como uma guinada à direita de Starmer, já estigmatizado pela hesitação em temas importantes do país. Sinalizava que seria candidato a premiê ou, segundo observadores, que o colega trabalhista já estava com os dias contados.

“Vamos mudar a política e fazer com que ela funcione melhor para as pessoas.” O discurso da vitória em Manchester, em 2017, não foi muito diferente do proferido na semana passada. Burnham, porém, parece mais perto agora do que chama de “construção de uma nova era”.



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