Lionel Messi perdeu dois pênaltis neste Mundial. Mbappé também desperdiçou um. Desde a Copa de 2014, o índice de conversão de pênaltis vem caindo, mostra levantamento da Opta. Hoje está em 66%; era 78%.
Mais dados e uma teoria econômica, a teoria dos jogos, podem explicar esse movimento.
Por décadas, a vantagem do batedor era enorme. Bola parada, perto do gol, apenas o goleiro pela frente.
As condições se mantêm, mas mudou a quantidade de jogos televisionados e a possibilidade de estudar os batedores. Então doutorando na Universidade de Chicago nos anos 1990, o espanhol Ignacio Palacios-Huerta tirou proveito disso e passou a catalogar milhares de pênaltis batidos em campeonatos ao redor do mundo (sua mãe o ajudou, enviando para ele fitas de jogos da Europa).
O estudo teve resultado prático e teórico. O prático foi que o pesquisador passou a ser ouvido por times para ajudar a melhorar o desempenho dos jogadores nas cobranças.
A primeira aplicação marcante foi na final da Liga dos Campeões de 2008, entre os ingleses Chelsea e Manchester United, em Moscou. Antes do jogo, Palacios-Huerta deu informações ao Chelsea sobre o padrão dos batedores do United.
Um dos achados foi que quando o jovem Cristiano Ronaldo fazia uma pausa na corrida antes de bater, ele geralmente chutava para a direita do goleiro. Petr Čech, do Chelsea, seguiu a recomendação. E defendeu.
O resultado teórico foi ter encontrado uma aplicação para a teoria dos jogos. Ela é o ramo da economia que estuda decisões em que o resultado de cada pessoa depende não só da própria escolha mas também da escolha do outro —e em que ambos sabem disso.
A pergunta que interessa aos economistas nesse tipo de jogo é: existe uma forma ideal de jogar, mesmo sem saber o que o adversário vai fazer? A resposta oferecida pelo matemático John Nash é “sim”. Mas ela não é uma jogada única.O ideal é você mudar as suas decisões para que o oponente já não saiba mais qual vai ser a sua escolha, mas não mudar sempre, e sim escolher de forma imprevisível.
Palacios-Huerta queria responder em sua pesquisa se jogadores profissionais, sem nunca ter estudado economia, jogam de acordo com o que a teoria prevê como estratégia ideal.
A resposta, segundo o pesquisador, foi “sim”, e de um jeito bastante preciso. Ele descobriu que batedores chutavam para o “lado natural” (o lado dominante, de acordo com a perna boa) cerca de 60% das vezes e para o lado oposto nos outros 40%. O que chama a atenção é que a taxa de conversão era praticamente idêntica nos dois lados, cerca de 80%.Isso é exatamente o que a teoria prevê: se um lado é mais eficiente, o goleiro se ajusta a isso, e então o batedor deve migrar para o outro lado, até equilibrar as chances. Mas aí o goleiro também vai mudar. E assim vai.
Na prática, isso significa que o batedor “ideal” não é o que sempre chuta para o seu lado mais forte. É o que consegue ser imprevisível, inclusive escolhendo, às vezes, o lado em que tem menos chance de acertar, só para não virar padrão.
Uma explicação possível para a queda recente na conversão é justamente a disseminação desse tipo de análise. Fica um jogo de “eu sei que você sabe que eu sei que você sabe”, o que pode ter reduzido a vantagem dos batedores.
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