Vinis, CDs e cassetes atraem público cansado do algoritimo - 05/08/2026 - Ilustrada

Vinis, CDs e cassetes atraem público cansado do algoritimo – 05/08/2026 – Ilustrada

Duas adolescentes entram em uma loja de discos no centro de São Paulo para comprar uma edição especial do disco “Cowboy Carter”, da Beyoncé. Nenhuma delas tem toca-discos em casa. Por isso, antes de irem embora, pedem para ouvir o álbum ali mesmo —pela primeira e, muito provavelmente, última vez.

Apesar de praticamente todo o catálogo musical do mundo caber na palma da mão, cenas como essa estão cada vez mais comuns. Depois de duas décadas em que o streaming parecia ter decretado o fim dos formatos físicos, o interesse por essas mídias —do vinil ao CD e até pela fita cassete— voltou a crescer.

Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, a IFPI, as vendas de discos cresceram 13,7% no ano passado, completando 19 anos consecutivos de expansão. Embora o streaming responda hoje por quase 70% da receita global da música gravada, a mídia física também voltou a ganhar espaço. Nos Estados Unidos, o vinil ultrapassou US$ 1 bilhão em faturamento anual pela primeira vez desde os anos 1980, ainda que com um volume de unidades muito inferior ao de seu auge.

“O vinil deixou de ser um produto de nicho e passou a atrair consumidores de diferentes gerações”, afirma Rafael Félix, diretor comercial da Universal Music Brasil. Segundo ele, o vinil já representa a maior parte das vendas de mídia física. No ano passado, a gravadora lançou cerca de 500 títulos no formato, número que deve se repetir neste ano. CDs também voltaram a crescer, embora em ritmo menor, e fitas cassete, DVDs e Blu-rays permanecem no catálogo.

A mudança, no entanto, não significa um retorno aos anos em que discos eram a principal forma de ouvir música. Em 1983, os Estados Unidos venderam mais de 200 milhões de discos, segundo a Associação da Indústria Fonográfica da América. Hoje, esse volume representa menos de um quarto daquele mercado.

Tocadores de disco ou rádios também não ficaram para trás, agora com versão que também priorizam conexões via Bluetooth. As gravadoras acompanharam essa transformação e reviveram técnicas de exclusividade usadas na época de ouros das mídias físicas. “The Life of a Showgirl” de Taylor Swift, por exemplo, teve 18 versões diferentes distribuídas entre CDs, vinis e fitas cassete.

Billie Eilish, Olivia Dean, Lady Gaga e Kendrick Lamar passaram a lançar discos com capas alternativas, vinis coloridos, box sets e edições exclusivas para diferentes lojas, estimulando fãs a comprar mais de uma versão do mesmo trabalho, como figurinhas de colecionador. Depois que a assinatura mensal substituiu a compra de álbuns como principal fonte de acesso à música, vender objetos voltou a ser um negócio rentável.

Em alguns casos, a lógica da mídia física passou a influenciar até o processo criativo. O álbum mais recente de Charli XCX chegou ao vinil sem um monólogo gravado pelo cineasta David Cronenberg porque a prensagem precisou ser enviada às fábricas semanas antes da versão digital ficar pronta. Beyoncé, Olivia Rodrigo e The Weeknd também lançaram prensagens que diferiam das versões disponibilizadas nos serviços de streaming, seja por faixas ausentes, seja por mixes preliminares.

A fita cassete, dada como obsoleta desde a popularização do CD, também voltou a circular, ainda que em um mercado muito menor. No Reino Unido, as vendas atingiram em 2022 o maior patamar desde 2003, segundo a Indústria Fonográfica Britânica (BPI), enquanto nos Estados Unidos cresceram mais de 200% no primeiro trimestre deste ano.

O estimulo é tão forte que o cantor PS Goner gravou inteiramente em cassete o álbum “There’s an Atm Inside”. O interesse renovado pelos formatos, porém, parece estar menos relacionado à qualidade sonora do que ao seu caráter de objeto.

Ao mesmo tempo, o crescimento da mídia física diz respeito a um incômodo. “Hoje a pessoa tem 30 milhões de músicas disponíveis, mas às vezes não ouve nenhuma”, diz o DJ Márcio Martinez, um dos sócios da Collective Vinyl, coletivo de venda de discos no centro de São Paulo, ao lado dos também DJs Mimi da Silva e Marcio S.

Para os DJs, o papel da mídia física é outro. Muitas vezes, um cliente entra procurando um álbum e sai levando outro porque um vendedor apresentou um novo artista com base no gosto do comprador, explica Marcio S. Mimi da Silva ainda comenta que a loja volta a exercer um papel de curadoria humana, fugindo da lógica do algoritmo e transformando a experiência musical em algo coletivo.

Essa sensação de esgotamento diante da abundância digital também é apontada por Glenn McDonald, que foi um dos engenheiros responsáveis pelos sistemas de recomendação do Spotify. Para ele, o ponto central é quem controla a experiência de ouvir música. Plataformas de streaming disputam o tempo do usuário e organizam sua escuta a partir de recomendações automáticas. “Você deixa de ser um fã de música para se tornar um consumidor de conteúdo”, resume.

McDonald diz que sistemas baseados em popularidade tendem a reforçar aquilo que já faz sucesso, tornando a descoberta mais previsível. Além disso, em um cenário em que até músicas produzidas por inteligência artificial passam a ser recomendadas por algoritmos, folhear uma caixa de discos ou CDs que retomam algum senso de realidade parece ganhar um novo apelo.

Antes de o Spotify aprender os gostos de seus usuários, descobrir música era um processo muito menos previsível. Durante os anos 2000, milhões de pessoas encontraram artistas como Arctic Monkeys, Lily Allen e Panic! at the Disco navegando pelo MySpace, rede social que se tornou um dos maiores palcos para artistas independentes antes da ascensão do Facebook.

Mas a plataforma também se transformou em um exemplo da fragilidade da memória digital. Em 2019, a empresa admitiu ter perdido cerca de 50 milhões de músicas, enviadas por 14 milhões de artistas entre 2003 e 2015, após uma migração mal-sucedida dos servidores. O episódio apagou um dos maiores acervos musicais da internet e expôs que, na era do streaming, o acesso não é o mesmo que posse.

A busca por uma certeza também ajuda a explicar quem está comprando mídias físicas hoje. A Universal identifica um crescimento consistente entre consumidores jovens. A Shinigami Records, especializada em lançamentos de CDs de rock e metal, observa o mesmo movimento, mesmo com um público mais nichado.

Desde 2007, a empresa colocou mais de 1.300 produtos físicos no mercado brasileiro e percebeu um aumento gradual da procura entre pessoas que cresceram já na era do streaming. “Nosso público mais forte ainda é o consumidor que sempre comprou mídia física, mas existe um crescimento do público jovem”, afirma o fundador, Willian Sakamoto.

Sakamoto acredita que a pandemia acelerou esse processo. Sem shows, bares ou outras formas de lazer, parte dos consumidores voltou a investir em entretenimento doméstico. Muitos redescobriram CDs e discos nesse período e mantiveram o hábito mesmo depois da reabertura das cidades.

Na Vinil Brasil, responsável pela prensagem de cerca de 120 mil discos por ano, a leitura é semelhante, embora com uma ressalva. Para a diretora Veridiana Lima, o termo “retorno” simplifica demais o fenômeno. “O vinil nunca deixou de ser fabricado”, diz. A demanda cresce continuamente há pelo menos oito anos, e as lojas especializadas jamais desapareceram completamente. “Se a música é intangível, o disco faz com que ela seja tangível.”



Créditos

Comments

No comments yet. Why don’t you start the discussion?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *